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terça-feira, abril 07, 2020

O impacto da COVID-19 nos estudantes internacionais/ estrangeiros no ensino superior em Portugal

Hoje vamos falar de uma coisa séria! O impacto da COVID-19 nos estudantes internacionais/ estrangeiros no ensino superior em Portugal
É facto que o Novo Coronavírus (COVID-19), e as medidas que têm sido implementadas em diversos países para contê-lo, estão (e irão continuar) a impactar a vida de todos os estudantes, em qualquer nível de ensino, nacionais ou internacionais. No entanto, basta olharmos para as dificuldades que os estudantes internacionais normalmente têm, devido ao facto de estarem longe da família, para imaginarmos que estes poderão vir a sofrer, ainda mais, com essa crise que promete ser longa.
Por isso, eu a uma colega do Grupo MIGRARE - Migrações, Espaços e Sociedades (do CEG/ IGOT), decidimos lançar um questionário online com o intuito de inventariarmos as dificuldades acrescidas que os estudantes internacionais/ estrangeiros inscritos no ensino superior português estão a ter nesse momento. Trata-se de um trabalho sério, que pretende apresentar algumas recomendações para minimizar os efeitos nocivos que esta crise poderá ter sobre estes estudantes.
Neste sentido, convidamos todos os estudantes internacionais/ estrangeiros inscritos numa instituição de ensino superior em Portugal a preencherem o questionário que se segue e, se possível, divulgarem-no para o maior número de pessoas: https://forms.gle/F277wX9gGBv3d29p6
English version follow the link: https://forms.gle/MvzNkJzxQSquqpD4A

Muito obrigada!
Juliana Iorio

domingo, março 15, 2020

Será preciso fechar as fronteiras porque o bom senso não é suficiente?

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay
Ficar em casa para mim nunca foi um problema. Há anos que eu trabalho em casa, e para falar a verdade, adoro. Só que existe uma diferença em você ficar em casa porque quer e você ser obrigada a ficar em casa. É como quando não fazemos dieta mas não nos apetece comer determinadas coisas que só temos vontade de comer quando não podemos! O ser humano é mesmo estranho… Fim de semana passado, quando o COVID 19 ainda não havia colocado Portugal em estado de alerta, eu saí sábado e domingo para almoçar fora. Lembro-me de ter pensado: "Isso não pode ser! Sair sábado e domingo para mim é demais! Fim de semana que vem não vou querer sair de casa!" Bem… parece que Deus ouviu as minhas preces! Só que agora, que sou obrigada a ficar em casa, a coisa muda de figura… Então quer dizer que nem ao ginásio e nem à missa poderei ir? NÃO, NÃO PODEREI (e não irei). Finalmente, hoje, dia 15 de Março de 2020, recebo a informação de que o meu ginásio estará fechado por tempo indeterminado, e no site da Igreja que costumo frequentar de que as missas estarão suspensas, por tempo também indeterminado.

É assustador o quanto a nossa vida pode mudar de uma semana para a outra. E o mais assustador é que só nos damos conta disso quando somos confrontados, subitamente, com a inevitabilidade da mudança. Só nos damos conta do quanto o mundo, em pleno século XXI, está despreparado para lidar com essas coisas, quando elas acontecem. Só nos damos conta da nossa falibilidade enquanto Doutores, quando a medicina, em pleno século XXI, se depara com casos que não consegue resolver.

Muito se tem dito sobre o facto de não se dever alarmar as pessoas para não instauramos o pânico. Pelo que tenho visto nesta última semana, mesmo com o alarme gritando em todos os jornais, canais de televisão e redes sociais, há ainda quem não esteja alarmado o suficiente. Nem o tão falado "açambarcamento", palavra que eu, na minha ignorância, tive que procurar o seu significado (e em minha defesa digo que isso talvez tenha acontecido por não ser uma palavra muito usada no Brasil), parece que assustou as milhares de pessoas que continuam a ir às praias (e aqui não falo só às praias portuguesa, mas também às praias brasileiras). E quando o alarme não é o suficiente para ativar o bom senso das pessoas, deparo-me sendo a favor de medidas proibitivas que, normalmente, uma adepta de regimes democráticos como eu, não costumaria apoiar. Será que será preciso fechar fronteiras e proibir que as pessoas saiam de casa, porque o bom senso não é suficiente para limitar a liberdade de ir e vir?

Quantas pessoas terão de morrer para que as pessoas entendam a gravidade do que estamos a passar? Desculpem-me o alarmismo, mas prefiro-vos alarmados, em pânico, mas vivos, do que tranquilos e mortos.

Penso que todo mundo tem um parente, um amigo ou conhecido médico que já está mais inteirado do COVID 19. Portanto, se não acreditam nas informações "alarmantes" que têm recebido, conversem com esses profissionais porque eles poderão vos elucidar da gravidade do que se está a passar. Se o facto de, em 900 anos de existência, NUNCA uma missa ter sido suspensa em Portugal não for o suficiente para vos assustar, sinceramente, eu não sei o que vos poderá assustar. Ainda assim, conversem com um médico. Os amigos médicos que tenho estão em pânico por dois motivos: (1) Esse virus causa insuficiência respiratória e os hospitais em todo mundo não têm máquinas para ventilar todos os doentes que delas irão precisar. Logo, terão sim de fazer escolhas. Aqueles que ficarem ligados às máquinas, terão mais chances de sobreviver. (2) Ainda que sobrevivamos, trata-se de um vírus cujas sequelas para os pulmões serão irreversíveis. Portanto, ainda que seja muito pouco provável que consigamos escapar à contaminação, (1) se contrairmos o vírus numa fase em que a pandemia estiver mais controlada, e precisarmos de uma máquina de ventilação, será mais provável termos acesso à ela. (2) Se mantivermos o nosso sistema imunitário mais fortalecido, poderá ser que os danos em nosso pulmões sejam menores.

Portanto, protejam-se, fortaleçam o vosso sistema imunitário, e tentem ficar em casa para não contrair o vírus, pelo menos por agora.

Não, não vai ser fácil famílias inteiras ficarem trancadas dentro de casa durante tantos dias. Como ouvi um comentador dizer: Provavelmente muitos divórcios acontecerão fruto dessa obrigatoriedade! Mas, brincadeiras à parte, pensemos pelo lado positivo! (1) Ainda podemos abrir as janelas, ir para as varandas e tomar sol! Esse vírus não se propaga pelo ar, de modo que ainda poderemos ter uma vida social, nem que seja à janela! (2) Viva as novas (já não tão novas assim!) Tecnologias da Informação e da Comunicação! Graças à elas, hoje podemos fazer vídeos conferências, falar com pessoas que estão no outro lado do mundo, e não nos sentirmos tão sós! Na realidade, somos uns sortudos! Até concertos online, gratuitos e no conforto do nosso lar, temos a sorte de ter! Obrigada Salvador Sobral pelo Concerto de sábado, dia 14, à noite. (3) Também temos a sorte de, à distância de um clique, conseguirmos comprar o que necessitamos, sem precisar ir ao supermercado. Hoje, muito diferente de muito pouco tempo atrás, não precisamos estar em "bunkers" e nem fazer stocks de enlatados e papel higiénico! Ou seja, não precisamos açambarcar! Já agora:

açambarcar



a.çam.bar.car

verbo transitivo
1.
comprar e reter quantidades elevadas de mercadorias com o fim de, pela escassez, fazer subir os seus preços no mercado
2.
monopolizarapropriar-se de

terça-feira, setembro 10, 2019

O ACOLHIMENTO DE ESTUDANTES INTERNACIONAIS: BRASILEIROS E TIMORENSES EM PORTUGAL

Acaba de ser publicado o n. 56 da REMHU, Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, com um dossiê  sobre o tema: "Migrantes africanos en América Latina: (in)movilidades y haciendo-lugar".
Nesta Revista, eu a Dra. Sílvia Nogueira (da Universidade Estadual da Paraíba) tivemos o prazer de publicar o artigo "O ACOLHIMENTO DE ESTUDANTES INTERNACIONAIS: BRASILEIROS E TIMORENSES EM PORTUGAL "que, segundo o editor desta Revista, Roberto Marinucci, "atenta sobre as dificuldades de inserção desses estudantes, provocadas às vezes por expectativas equivocadas ou exageradas por parte dos recém-chegados, outras vezes pelo idioma (sobretudo em relação aos timorenses), por entraves institucionais ou, inclusive, por preconceitos raciais e pela xenofobia."
Quem tiver interesse em ler o artigo, basta acessar:


 http://www.scielo.br/pdf/remhu/v27n56/2237-9843-remhu-27-56-197.pdf

sábado, junho 15, 2019

Por que devo contratar um imigrante?

Tive a oportunidade de fazer, no último mês, uma "pesquisa de campo" dentro da minha própria casa. Resolvi fazer uma pequena obra em casa, e aí começou o desafio de encontrar um bom empreiteiro. O primeiro que contactei (nacional do país onde vivo), para além de colocar muitos entraves à realização da obra (isso não dá, isso eu não faço, isso eu não sei) e um preço acima do mercado para executa-la, quando decidi adjudicar o serviço (por não conhecer outro) o mesmo não se mostrou disponível (agora não dá, agora não tenho tempo, etc). É certo que o mercado da construção civil em Portugal está "a bombar", mas seria bom que os empreiteiros nacionais não esquecessem que, até há bem pouco tempo (2014 mais ou menos), a crise que havia assolado este país deixou muitos empreiteiros sem trabalho. Por isso, agora que mercado aqueceu, não acho que deixar de conquistar novos clientes seja uma boa política. Nunca se sabe o dia de amanhã, não é mesmo?
Pois bem. Isso obrigou-me a continuar a minha busca e, foi aí, que eu tive a indicação de uma empresa formada essencialmente por imigrantes brasileiros. A simplicidade do seu proprietário, aliada a uma demonstração sólida de conhecimento sobre o assunto, para além de um preço muito mais atrativo do que me havia sido dado pela empresa anterior, acabaram por me convencer. Sim, pode-se dizer que foi um tiro no escuro, mas também folgo em dizer que esse tiro não poderia ter sido mais certeiro!

Foto Katie Moum
Depois de passar por isso (e enquanto investigadora em migrações), não consegui viver essa experiência sem prestar atenção nesse trabalhador imigrante. Durante quase três semanas, tive a oportunidade de conviver com cerca de 8 brasileiros dentro de casa, conheci histórias de vida, realizei observação participante, entrevistas não estruturadas, e tive a oportunidade de enriquecer, ainda mais, o meu conhecimento sobre migração.

A empreiteira que contratei existe há cerca de 10 anos, e o seu dono (que esteve quase todo o tempo trabalhando com os seus funcionários), é natural de Governador Valadares. Já havia tido uma experiência migratória anterior para os Estados Unidos, onde esteve durante 5 anos, até que em 2011, devido à crise que assolou aquele país, resolveu vir para Portugal. Segundo ele, naquela época, apesar de Portugal também vivenciar uma crise, a situação aqui era "muito melhor" do que lá. "Na época da crise, eu ganhei muito dinheiro aqui com pequenas obras, reformas. As pessoas não tinham dinheiro para construir, e por isso queriam melhorar aquilo que já tinham. Só que muitas empresas portuguesas não queriam fazer esse tipo de serviço", explicou. No entanto, como alguns parentes seus continuaram a viver nos Estados Unidos, hoje já pensa se não estaria na hora de para lá regressar. Disse que a construção civil naquele país voltou a precisar de mão-de-obra e a pagar muito bem por ela, e que em Portugal já se começa a sentir um arrefecimento neste sector.
Salientou, no entanto, que o principal problema que sente em Portugal é não ter sido pago por algumas obras que fez. Quanto maior a empreitada, mais difícil é receber por ela. Contou, inclusive, que já pensou em entrar com algumas ações na justiça para receber, mas que como trata-se de "peixes graúdos", teme perder ainda mais dinheiro e ficar tudo "em águas de bacalhau". Ou seja, apesar de estar legalizado em Portugal há quase 10 anos, tem receio de brigar na justiça pelos seus direitos contra um nacional. Ainda mais se esse nacional tiver algum poder. Além disso, a descrença na justiça que parece estar enraizada em muitos brasileiros, também pode ser responsável por fazê-lo pensar duas vezes antes de iniciar uma "briga".
Ainda assim, pode-se dizer que esse imigrante, empreendedor, e que tem dado muito trabalho para os seus conterrâneos, se tem safado em Portugal. Atualmente possui 21 empregados, a maioria brasileiros, trabalhando com ele. Muitos em regime de prestação de serviço (ou seja, trabalho precário, mas não mais precário do que o trabalho de muitos portugueses).

Assim, num dia, tive cerca de 8 brasileiros trabalhando dentro de casa. Saía o pedreiro (também proveniente de Governador Valadares), que está em Portugal há 3 anos, e entrava o pintor, que veio de Belo Horizonte há apenas um ano. Saía o ladrilhador, oriundo da Bahia, e que voltou para o Brasil no passado dia 9, e entrava o eletricista, ou o canalizador, ou o ajudante de pedreiro, todos de nacionalidade brasileira.

Eu, também brasileira, entre um cafezinho e outro, descobri que:
O que está em Portugal há 3 anos, deixou um filho no Brasil e nunca mais lá voltou. Veio para o Algarve, estimulado por um "amigo" que já lá se encontrava. Esse "amigo" prometeu-lhe um trabalho na restauração, e disse que ele poderia ficar em sua casa, desde que dividissem as despesas. O que se passou é que o trabalho não veio, o dinheiro que ele havia trazido do Brasil acabou, e ele acabou por ser "expulso" de casa porque não tinha mais dinheiro para dividir as despesas. Ou seja, é a eterna história do "amigo" que promete o "eldorado" e depois não tem como cumprir com o prometido… é a eterna história do "amigo" que precisa de alguém para dividir as despesas de casa, e se aproveita de uma situação de vulnerabilidade do outro para servir-se desse propósito, não se importando com o futuro do mesmo. Enfim… sem dinheiro, e sem lugar para morar, viu-se "obrigado" a trabalhar na apanha da laranja (muito comum no Algarve). Entretanto, lá contraiu uma doença, que até hoje não sabe ao certo o que foi, mas que o deixou internado durante 3 dias, e com "a sensação de que iria morrer". Quando saiu do hospital, decidiu vir para Lisboa, onde conheceu o dono dessa empreiteira, e com ele começou a trabalhar.

Já o que está aqui há um ano, ainda não está legalizado. Passa recibo verde e já tem uma advogada tratando-lhe da autorização de residência que, entretanto, "custa a sair". Disse que veio com a mulher porque a situação em Belo Horizonte estava muito ruim. Vieram totalmente no escuro, sem nada ao certo, e deram a "sorte" de encontrar trabalho logo. Disse que o maior desejo é ter logo a autorização de residência para poder voltar ao Brasil e comer "goiabada com queijo minas" (Não preciso nem dizer que quando ouvi isso fui logo abrir a goiabada que havia trazido do Brasil em Janeiro, e estava a espera de uma ocasião especial! Não há melhor ocasião do que partilhar aquilo que gostamos com quem sabe apreciar, não é mesmo?)

Por fim, o que já estava de regresso à Bahia, tem a mãe a viver em Portugal e costuma dividir-se entre um país e outro. No Brasil tem um salão de cabeleireiros, mas vem para cá quando precisa de dinheiro para comprar coisas para o salão. Tem a "sorte" da mãe já viver cá há muito anos, e por isso poder dividir-se entre ambos países, conforme as suas necessidades.

Foi, portanto, muito interessante descobrir que, apesar de nenhum deles ter trabalhado na construção civil antes de migrar, a qualidade do trabalho que realizam hoje não deixa nada a desejar para qualquer pedreiro, pintor ou ladrilhador experiente. E é aí que está a resposta à pergunta do título desse texto: Por que eu devo contratar um imigrante? Porque, sem generalizar, a necessidade costuma fazer com que ele se esforce muito mais do que qualquer outra pessoa. Ele se esforça porque precisa de dinheiro e não tem suporte familiar no país de destino. Ele se esforça porque quer juntar dinheiro para comprar alguma coisa no seu país de origem. Ele se esforça porque sabe que, para ser aceite, tem que provar que é tão bom, se não melhor, do que qualquer nacional. Ele se esforça porque quer ser aceite pela sociedade de acolhimento, quer ter direitos (para além de deveres), quer ter uma vida melhor do que a tinha em seu país de origem e, muitas vezes, porque aprende a valorizar pequenas coisas, como uma simples "goiabada com queijo minas".

É por isso que quando eu disse à minha irmã, que está no Brasil, que eles estavam a trabalhar inclusive aos sábados, até às 22h, ela ficou muito surpresa e disse: "Aqui eles não fazem isso!" Pois não… Se calhar por não se sentirem estimulados, por ganharem pouco, por não terem expectativas… Mas se você contratar um imigrante, talvez ele faça. Porque, em Portugal ou em qualquer parte do mundo, ser-se imigrante é ser-se esforçado, é ter que sair da zona de conforto, é não ter nada como garantido, e é ter que provar, o tempo todo, que se tem valor.

segunda-feira, junho 10, 2019

Educação para a cidadania global - A educação na diáspora pode ser um dos pilares, mas não é o único

Não podemos pensar numa educação de qualidade no mundo lusófono sem pensar numa educação de qualidade na diáspora. Por isso, segundo Flávio Inocêncio, professor da faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, "a educação é um dos pilares para o desenvolvimento, mas não é o único". Na diáspora muitos são os fatores, para além da educação, que trabalhados em conjunto poderão proporcionar um maior e melhor desenvolvimento.
No entanto, muito se tem falado sobre educação, sobre os acordos e protocolos que têm sido criados entre as universidades do mundo lusófono, mas pouco se tem falado sobre os estudantes que são a "ponta do iceberg" desse desenvolvimento. Como referiu Sílvia Nogueira, professora da Universidade Estadual da Paraíba (em uma comunicação que fizemos em conjunto), tem-se olhado MUITO POUCO para os estudantes, enquanto pessoas que precisam ser acolhidas e integradas na sociedade que os recebeu.
Por isso, antes de mais, é preciso ter em atenção que os jovens na diáspora têm as suas culturas (e é natural que queiram mantê-las), e que se não contribuirmos para a criação de identidades transnacionais, será cada vez mais difícil formar cidadãos globais, enfatizou Emellin de Oliveira, investigadora do Centro de Investigação e Desenvolvimento sobre Direito e Sociedade (CEDIS).
Estas foram algumas das conclusões da conferência "Educação de Qualidade e Desenvolvimento na Lusofonia", promovida pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa em conjunto com o Instituto Camões. Esta conferência, que aconteceu entre 6 e 7 de Junho de 2019, debateu o objetivo número 4 presente na Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), Educação de Qualidade.
Foi, portanto, muito bom ver pessoas pertencentes às diversas comunidades dos países de língua portuguesa (CPLP) discutirem, em Portugal, um tema que parece que em outros países da CPLP não tem recebido a devida importância.
De acordo com Ana Paula Laborinho, Diretora da Organização dos Estados Ibero-Americanos, hoje quando falamos em educação de qualidade e desenvolvimento é fundamental perceber que o desenvolvimento também passa pelo ensino superior. Muito se tem discutido a importância da educação de base, querendo, desta forma, diminuir a importância que o ensino superior também tem em todo o processo de formação ao longo da vida. Se, como disse Flávio Inocêncio, "o segredo do sucesso no ensino superior está no ensino primário", por outro lado existe hoje um "divórcio" entre o ensino de base e o ensino superior. Por isso, para este professor, quando se pensa em políticas públicas "não basta só falar em educação e não prestar atenção em outros aspectos institucionais".
Segundo Laborinho, sabe-se hoje que, "também através das artes conseguimos chegar à educação para a cidadania". Por isso, se queremos formar cidadãos que possam contribuir para o desenvolvimento, devemos "pensar a educação não na perspectiva dos alunos que temos, mas daqueles que ainda não temos", ressaltou. Enfim, devemos pensar mais nos alunos, nas suas culturas, e no aprendizado que o estímulo a troca cultural poderá proporcionar.
Ana Paula Laborinho, Diretora da Organização dos Estados Ibero-Americanos
Mas se quando olhamos para a educação na diáspora nos deparamos com programas escolares feitos ainda contra os "outros" (ex-colonizados) e não com eles (como referiu Laborinho), como conseguiremos promover uma educação para a cidadania?

Essa é uma pergunta difícil de responder quando se percebe que isto ainda acontece não só nos países que já foram colonizadores, mas também naqueles que já foram colónias. O Brasil, por exemplo, ex-colónia de Portugal, tentou através da UNILAB - Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira - fazer uma reparação histórica com África, mas acabou por implementar uma universidade "muito neocolonial", como referiu Marcela Magalhães de Paula, da Embaixada do Brasil em Roma. Essa falta de ver os "outros" como iguais, e não como seres superiores ou inferiores, fez com que a implementação da UNILAB pecasse pela falta de preparo dos seus professores, falta de estrutura na cidade onde nasceu (Redenção/ Ceará), para além de uma falta de aceitação dos habitantes locais (o que alimentou o preconceito). Ou seja, houve uma falta de integração dos estudantes dos países africanos de língua oficial portuguesa, o que criou divergências com os pertencentes a outras religiões e aumentou a violência na cidade. E aqui voltamos ao início deste texto, onde, uma vez mais, vimos que é necessário pensar não só na educação, mas no "outro" como um ser humano, que merece ser integrado na sua nova sociedade de acolhimento, que merece ter a sua identidade respeitada para que assim possa criar uma identidade transnacional e, só desta forma, se transformar num cidadão, mas num cidadão global.


Sílvia Nogueira, Flávio Inocêncio, Luzia Moniz (moderação), Marcela Magalhães de Paula

Por isso debater a educação de qualidade, a educação na diáspora, e a educação no mundo lusófono sempre será muito importante. Este foi o terceiro evento sobre o tema, em que estive presente este ano, o que demonstra que esta é uma preocupação cada vez mais transversal às diversas áreas do conhecimento, que buscam respostas, soluções e novas formas de assegurar uma educação/ formação de qualidade ao longo da vida. Desta conferência irão resultar "materiais científicos, que serão divulgados amplamente através do livro de atas e da disponibilização, em vídeo, de toda a conferência", os quais prometo divulgar aqui!

domingo, maio 19, 2019

A questão não é falta de liberdade de imprensa, mas o que os jornalistas fazem quando têm essa liberdade

Sob o tema "Democracia e Liberdade de Imprensa", a revista portuguesa "Sábado", completou no passado dia 15 de Maio, 15 anos de existência. Apesar das discussões acerca deste tema já estarem mais do que batidas, como parece que até hoje existe uma certa dificuldade dos órgãos de comunicação social manterem a sua liberdade, mesmo em países democráticos, tenho que concordar que falar sobre esse assunto continua a ser pertinente.

Sofia Colares Alves - Representante da Comissão Europeia em Portugal, João Miguel Tavares - Jornalista, 
Francisco Teixeira da Mota - Advogado e Vladimir Netto - Jornalista

Não gosto muito de conferências que não dão voz à plateia, mas como eram muitos oradores, e todos eles muito bons, conseguiu-se um debate interessante. No entanto, no dia seguinte, todos os jornais portugueses, inclusive a Revista Sábado, resumiram o evento a uma única frase, proferida pelo Presidente da República em Portugal, Marcelo Rebelo de Souza, orador convidado para a abertura do evento: "Sem comunicação forte, não há democracia forte". Ok! Essa até pode ser uma frase de impacto, que justifique a manchete de todos os órgãos de comunicação (apesar de eu achar que toda a pessoa, com um bocado de inteligência, já sabe disso… ou seja, todo mundo que vive em democracia sabe que, faz parte da ordem democrática que tudo e todos sejam escrutinados no domínio público, certo?). No entanto, tanta coisa mais importante foi debatida neste evento e deixada para trás pelos órgãos de comunicação… o estrangulamento económico que as empresas jornalísticas estão a sofrer, o risco de sobreviverem somente as empresas mais fortes e voluntaristas, o combate às censuras veladas, como se defender de abusos, garantir a isenção e fomentar a leitura, enfim… como os escrutinados, mesmo não concordando com o que dizem deles, devem sempre usufruírem dos seus direitos de resposta.

O Presidente da República em Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa

Aliás, "a quebra da leitura em Portugal" foi, por exemplo, um dos pontos salientados pelo Presidente da República, nada explorado pelos órgãos de comunicação, apesar de eu achar que você,
que chegou até aqui, deve ser um dos poucos que ainda continuam a ler, não só em Portugal, mas em qualquer parte do mundo! Ou seja, estamos, também na comunicação (no artigo anterior referi a mesma coisa em relação à educação), atravessando um período de mudança de paradigma.

Como referiu Edwy Plenel, fundador da Mediapart (uma espécie de laboratório colaborativo que hoje se mantém somente com a receita obtida com os seus assinantes), "criou-se um monstro com a gratuidade das notícias via Net, tendo-se como fonte de rendimento somente as publicidades". Este foi um erro histórico pois, PARA FAZER UM JORNAL DE QUALIDADE É PRECISO PAGAR PESSOAS DE QUALIDADE (como se diz em Portugal, não é possível fazer omelete sem ovos!) Logo, se depois esse conteúdo é colocado gratuitamente na Internet, e as publicidades não são suficientes para custearem o trabalho do jornalista, quem o irá pagar?

Edwy Plenel

Por isso, a crise dos media de hoje, para além de ser fruto de problemas relacionados com a produção de conteúdo (pois hoje há uma "nova" figura no jornalismo, que não é jornalista, mas se mistura com este nos meios digitais, disseminando sobretudo convicções e não informação útil), também é fruto de problemas advindos da distribuição (cada vez mais rápida e com um maior alcance) de toda essa panóplia de conteúdo. (Até aqui, nada de muito novo).

Vladimir Netto
Mas foi a partir daqui que, para mim, começou o ponto alto deste evento, em nada explorado posteriormente pela comunicação social: A participação do jornalista brasileiro Vladimir Netto, autor do livro LAVA JATO, que inspirou a série da Netflix "O mecanismo". Confesso que não li o livro, mas quem o leu refere que, apesar do mesmo ser baseado em factos verificados e comprovados, há uma determinada altura em que o jornalista se confunde com um romancista, e é aí que fica evidente a opinião do autor (coisa que um jornalista deveria tentar não facultar - e digo tentar porque não acredito em imparcialidade total no jornalismo, pois a simples forma como este enxerga um acontecimento denota certa parcialidade).

Pois bem, mas neste contexto, achei interessante Vladimir Netto ter referido que no final do governo Dilma, ou melhor, quando se iniciou a operação Lava Jato, havia uma liberdade de imprensa total, e o acesso aos documentos do processo totalmente liberado para os jornalistas (coisa que, também de acordo com o mesmo, hoje em dia está muito diferente). Ora, isto me fez pensar que o problema pode não estar na falta de liberdade de imprensa ou acesso à informação, mas na capacidade do jornalista indagar: Por que eu tive, ou me deram, tanta liberdade? Por que eu tive, ou me deram,  acesso à essa informação? Qual é o interesse por trás daqueles que me facultaram essas informações?
Será que ninguém se lembrou de perguntar (e é por isso que eu não gosto de conferências sem a participação do público) se Vladimir Netto não achou no mínimo estranho toda essa facilidade com que os órgãos de comunicação tiveram acesso aos documentos da Lava Jato? 

Eu sei que a primeira temporada de "O mecanismo" (essa eu vi) mostra o juiz Sérgio Moro apenas como um vaidoso, que de tudo fez para progredir na carreira (se considerarmos onde ele está hoje, essa ideia não é de todo absurda). No entanto, naquela altura, nenhum jornalista desconfiou que tudo o que ele estava fazendo poderia não ser somente por "sede de justiça"? 
Será que ninguém desconfiou que poderia haver outras intenções na Lava Jato, e sobretudo na prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que não se prendiam única e exclusivamente com a "benevolência" ou vaidade desse juiz? Enfim… achei no mínimo naif essa visão romanceada de todo o processo da Lava Jato (mas isso é a minha opinião, porque isso é um artigo de opinião).

Não contesto o jornalismo que Vladimir Netto fez (e faz), mas sim a ingenuidade de não ter percebido porque a imprensa teve um acesso tão facilitado às informações deste processo naquela época, se hoje, como ele mesmo referiu, o atual governo "tem restringido o trabalho da imprensa", afirmando mesmo que "há um esforço em descredibilizar a imprensa brasileira".

O facto é que, em 2018, foram contabilizados 156 casos de violência contra jornalistas no Brasil, sendo 85 ataques por meios digitais (a maioria à blogueiros), e 4 deles terminando mesmo em assassinato. Existe, nas palavras de Vladimir Netto, uma prática de ataque à imprensa nunca vista antes. "Na reta final da campanha eleitoral de 2018 a imprensa era atacada uma média de 10 vezes por semana, segundo um levantamento do jornal Folha de São Paulo", completou.

A estratégia do atual governo é, portanto, taxar de verdadeiras notícias falsas (e aqui não confundir erro jornalístico, que as vezes pode acontecer, com notícias produzidas com má fé, para desinformar a população), utilizando um verdadeiro "exército" para repercutí-las, sobretudo através das redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas.

Apesar de todas as iniciativas que têm sido feitas para combater as fake news, como a criação de diversas agências de checagem (e aqui quem quiser poderá utilizar essas ferramentas para checar as informações que são disseminadas: Aos Fatos, Lupa, Projeto Comprova, Fato ou Fake, Estadão Verifica, Folha Informações) as pessoas precisam entender que "o produto do jornalismo não é mais 
a informação, mas sim a credibilidade da mesma", salientou Vladimir Netto, citando Jorge Furtado em 9 de Agosto de 2014. Daí a importância de todos, antes de compartilharem uma notícia, procurarem saber a sua fonte, ou seja, como a mesma foi feita? Qual a credibilidade de quem a produziu? Nos dias que correm, conhecer o processo de produção das notícias nunca foi tão importante!

Deixo-vos, aqui, o link de um programa que assisti hoje, na SIC Radical, que exemplifica muito bem "Como Isto Anda", no jornalismo.

sábado, maio 18, 2019

#WorldFamilySummit2019 - Enquanto em Portugal discutia-se o desenvolvimento sustentável a partir da Educação, o Brasil anunciava cortes na Educação...

Pode parecer um contrassenso, mas enquanto no dia 14 de Maio, no Brasil, articulava-se uma manifestação contra os cortes na Educação; em Portugal diversas entidades públicas, privadas e membros da sociedade civil em geral (entre os quais muitos brasileiros) discutiam o desenvolvimento sustentável a partir de uma "Educação de Qualidade". Isto aconteceu entre 13 e 15 de Maio, durante a edição de 2019 do World Family Summit, que foi realizado pela primeira vez em Portugal.


Para que nenhuma família seja deixada para trás, é necessário uma educação de qualidade

Mas afinal, o que é o World Family Summit?
Foi em 1947, em Paris (um ano após a criação da World Family Organization - uma organização internacional que nasceu para representar e defender os interesses das famílias no mundo) que aconteceu o primeiro Congresso Mundial da Família. Nesta altura, a recém criada Organização das Nações Unidas (ONU) esteve representada através 200 delegados e 27 nações. Em 2004, o então Secretário-geral da ONU, Kofi Annan, sugeriu celebrar o 10º aniversário do Ano Internacional das Família, e a World Family Organization, juntamente com universidades e organizações não governamentais afiliadas provenientes de 189 países, criaram a primeira edição do World Family Summit.
Por isso, durante 3 dias, 34 países membros das Nações Unidas debateram, em Lisboa, 3 dos 17 objetivos globais para o desenvolvimento sustentável que fazem parte da Agenda 2030 da ONU: educação de qualidade, comunidades e cidades sustentáveis e a criação de parcerias para o alcance de tais objetivos. Esta Agenda é, portanto, um conjunto de programas, ações e diretrizes, que os países membros da ONU propõem com o intuito de erradicarem a pobreza, protegerem o planeta, e promoverem a prosperidade para todos até 2030.

#worldfamilysummit2019
Tendo como mote "O desenvolvimento sustentável começa com a Educação", a sessão plenária do dia 14, do World Family Summit, enfatizou o aprendizado ao longo da vida e através de múltiplos caminhos como um direito de todos os cidadãos e uma obrigação do Estado e da iniciativa privada. Neste sentido, António Valadas da Silva, do Instituto para o Emprego e Formação Profissional em Portugal, salientou a importância do papel da família na educação, uma vez que a formação do indivíduo não termina com o fim do ciclo de estudos, e lembrou que o combate a pobreza, a proteção do ambiente e o fortalecimento da democracia, somente são possíveis através de uma educação permanente.

Portanto, apesar da educação de hoje precisar ser repensada, as instituições de ensino superior continuam a ter um papel ativo em toda e qualquer mudança. Somente com o pensamento crítico nas universidades, com a liberdade para experimentar e ter novas ideias, as universidades poderão contribuir para um desenvolvimento sustentável e inclusivo, completou Clara Raposo, Presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) em Portugal. Somente através do debate entre as partes interessadas, as nações poderão se preparar para uma mudança de paradigma na educação.

É certo que a sessão plenária do dia 14 não teve como "keynote speaker" nenhum brasileiro… mas havia muitos a ouvir o que as outras nações tinham a dizer sobre uma educação de qualidade, e nenhuma das nações que se pronunciou retirou a importância do papel da universidade neste processo. Por isso, os professores devem estar preparados para o uso das tecnologias na sala de aula, mas como o acesso às tecnologias pode variar de país para país, os professores são os únicos que poderão contornar essa dificuldade. A importância dos professores está, portanto, justamente no facto do acesso ao conhecimento digital estar nas mãos deles e não nos objetos digitais. Um professor preparado e estimulado é capaz de decidir o que usar em suas aulas, ainda que os seus alunos não possam ter acesso direto às tecnologias, salientou o professor Millad M. SAAD, da Universidade Libanesa.

Por isso, ao ouvir no dia 14 de maio de 2019 diversos países membros das Nações Unidas exaltarem que o desenvolvimento sustentável de qualquer país começa na educação, e saber que no dia a seguir iriam haver manifestações no Brasil em protesto contra os cortes nas verbas destinadas à educação, eu tive muita dificuldade em entender o que o Brasil, apesar de ser um país membro da ONU, estava lá a fazer… Espero que os brasileiros que lá estiveram tenham realmente ouvido e interiorizado que uma educação de qualidade depende de investimento SIM, de um ensino superior de qualidade SIM, de professores preparados e motivados SIM, mas, sobretudo de liberdade para se experimentar e se ter novas ideias. Espero que todos tenham entendido que o pensamento crítico nas universidades só se constrói com debate, com participação cívica e com o exercício da cidadania. Por fim, espero que o Brasil todo tenha entendido a importância das manifestações do dia 15 de maio de 2019, e que não aceite que o direito à educação deixe de ser uma obrigação do Estado.

sábado, março 30, 2019

Minha Tese de Doutoramento no repositório da Universidade de Lisboa

Para quem estiver interessado, a minha tese de Doutoramento, "Trajetórias de Mobilidade Estudantil Internacional : estudantes brasileiros no ensino superior em Portugal", já está disponível para leitura no repositório da Universidade de Lisboa: http://hdl.handle.net/10451/37454

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

A construção midiática do “eldorado” lusitano a partir dos novos fluxos migratórios de brasileiros para Portugal

2018 acabou com a publicação de um artigo científico, pela Revista de Ciências Sociais "SÉCULO XXI" (Brasil), que eu tive o prazer de escrever com a minha antiga colega de Mestrado em Comunicação e Indústrias Culturais da Universidade Católica Portuguesa, Elaine Javorski Souza!
"A construção midiática do “eldorado” lusitano a partir dos novos fluxos migratórios de brasileiros para Portugal"

A importância das Redes Sociais, da Internet e das Redes Sociais Online na mobilidade dos estudantes brasileiros do ensino superior para Portugal

E acaba de ser publicado - v. 33, n. 2 (2018) - mais um artigo científico de minha autoria. Desta vez, pelos Cadernos de Estudos Sociais da Fundação Joaquim Nabuco (Brasil):

Social class inequalities and international student mobility

Feliz 2019!
Este ano começa com a publicação de mais um artigo científico de minha autoria e de Sónia Pereira, publicado pela Revue belge de géographie - Belgeo (3 | 2018).
Confiram em: