sábado, junho 15, 2019

Por que devo contratar um imigrante?

Tive a oportunidade de fazer, no último mês, uma "pesquisa de campo" dentro da minha própria casa. Resolvi fazer uma pequena obra em casa, e aí começou o desafio de encontrar um bom empreiteiro. O primeiro que contactei (nacional do país onde vivo), para além de colocar muitos entraves à realização da obra (isso não dá, isso eu não faço, isso eu não sei) e um preço acima do mercado para executa-la, quando decidi adjudicar o serviço (por não conhecer outro) o mesmo não se mostrou disponível (agora não dá, agora não tenho tempo, etc). É certo que o mercado da construção civil em Portugal está "a bombar", mas seria bom que os empreiteiros nacionais não esquecessem que, até há bem pouco tempo (2014 mais ou menos), a crise que havia assolado este país deixou muitos empreiteiros sem trabalho. Por isso, agora que mercado aqueceu, não acho que deixar de conquistar novos clientes seja uma boa política. Nunca se sabe o dia de amanhã, não é mesmo?
Pois bem. Isso obrigou-me a continuar a minha busca e, foi aí, que eu tive a indicação de uma empresa formada essencialmente por imigrantes brasileiros. A simplicidade do seu proprietário, aliada a uma demonstração sólida de conhecimento sobre o assunto, para além de um preço muito mais atrativo do que me havia sido dado pela empresa anterior, acabaram por me convencer. Sim, pode-se dizer que foi um tiro no escuro, mas também folgo em dizer que esse tiro não poderia ter sido mais certeiro!

Foto Katie Moum
Depois de passar por isso (e enquanto investigadora em migrações), não consegui viver essa experiência sem prestar atenção nesse trabalhador imigrante. Durante quase três semanas, tive a oportunidade de conviver com cerca de 8 brasileiros dentro de casa, conheci histórias de vida, realizei observação participante, entrevistas não estruturadas, e tive a oportunidade de enriquecer, ainda mais, o meu conhecimento sobre migração.

A empreiteira que contratei existe há cerca de 10 anos, e o seu dono (que esteve quase todo o tempo trabalhando com os seus funcionários), é natural de Governador Valadares. Já havia tido uma experiência migratória anterior para os Estados Unidos, onde esteve durante 5 anos, até que em 2011, devido à crise que assolou aquele país, resolveu vir para Portugal. Segundo ele, naquela época, apesar de Portugal também vivenciar uma crise, a situação aqui era "muito melhor" do que lá. "Na época da crise, eu ganhei muito dinheiro aqui com pequenas obras, reformas. As pessoas não tinham dinheiro para construir, e por isso queriam melhorar aquilo que já tinham. Só que muitas empresas portuguesas não queriam fazer esse tipo de serviço", explicou. No entanto, como alguns parentes seus continuaram a viver nos Estados Unidos, hoje já pensa se não estaria na hora de para lá regressar. Disse que a construção civil naquele país voltou a precisar de mão-de-obra e a pagar muito bem por ela, e que em Portugal já se começa a sentir um arrefecimento neste sector.
Salientou, no entanto, que o principal problema que sente em Portugal é não ter sido pago por algumas obras que fez. Quanto maior a empreitada, mais difícil é receber por ela. Contou, inclusive, que já pensou em entrar com algumas ações na justiça para receber, mas que como trata-se de "peixes graúdos", teme perder ainda mais dinheiro e ficar tudo "em águas de bacalhau". Ou seja, apesar de estar legalizado em Portugal há quase 10 anos, tem receio de brigar na justiça pelos seus direitos contra um nacional. Ainda mais se esse nacional tiver algum poder. Além disso, a descrença na justiça que parece estar enraizada em muitos brasileiros, também pode ser responsável por fazê-lo pensar duas vezes antes de iniciar uma "briga".
Ainda assim, pode-se dizer que esse imigrante, empreendedor, e que tem dado muito trabalho para os seus conterrâneos, se tem safado em Portugal. Atualmente possui 21 empregados, a maioria brasileiros, trabalhando com ele. Muitos em regime de prestação de serviço (ou seja, trabalho precário, mas não mais precário do que o trabalho de muitos portugueses).

Assim, num dia, tive cerca de 8 brasileiros trabalhando dentro de casa. Saía o pedreiro (também proveniente de Governador Valadares), que está em Portugal há 3 anos, e entrava o pintor, que veio de Belo Horizonte há apenas um ano. Saía o ladrilhador, oriundo da Bahia, e que voltou para o Brasil no passado dia 9, e entrava o eletricista, ou o canalizador, ou o ajudante de pedreiro, todos de nacionalidade brasileira.

Eu, também brasileira, entre um cafezinho e outro, descobri que:
O que está em Portugal há 3 anos, deixou um filho no Brasil e nunca mais lá voltou. Veio para o Algarve, estimulado por um "amigo" que já lá se encontrava. Esse "amigo" prometeu-lhe um trabalho na restauração, e disse que ele poderia ficar em sua casa, desde que dividissem as despesas. O que se passou é que o trabalho não veio, o dinheiro que ele havia trazido do Brasil acabou, e ele acabou por ser "expulso" de casa porque não tinha mais dinheiro para dividir as despesas. Ou seja, é a eterna história do "amigo" que promete o "eldorado" e depois não tem como cumprir com o prometido… é a eterna história do "amigo" que precisa de alguém para dividir as despesas de casa, e se aproveita de uma situação de vulnerabilidade do outro para servir-se desse propósito, não se importando com o futuro do mesmo. Enfim… sem dinheiro, e sem lugar para morar, viu-se "obrigado" a trabalhar na apanha da laranja (muito comum no Algarve). Entretanto, lá contraiu uma doença, que até hoje não sabe ao certo o que foi, mas que o deixou internado durante 3 dias, e com "a sensação de que iria morrer". Quando saiu do hospital, decidiu vir para Lisboa, onde conheceu o dono dessa empreiteira, e com ele começou a trabalhar.

Já o que está aqui há um ano, ainda não está legalizado. Passa recibo verde e já tem uma advogada tratando-lhe da autorização de residência que, entretanto, "custa a sair". Disse que veio com a mulher porque a situação em Belo Horizonte estava muito ruim. Vieram totalmente no escuro, sem nada ao certo, e deram a "sorte" de encontrar trabalho logo. Disse que o maior desejo é ter logo a autorização de residência para poder voltar ao Brasil e comer "goiabada com queijo minas" (Não preciso nem dizer que quando ouvi isso fui logo abrir a goiabada que havia trazido do Brasil em Janeiro, e estava a espera de uma ocasião especial! Não há melhor ocasião do que partilhar aquilo que gostamos com quem sabe apreciar, não é mesmo?)

Por fim, o que já estava de regresso à Bahia, tem a mãe a viver em Portugal e costuma dividir-se entre um país e outro. No Brasil tem um salão de cabeleireiros, mas vem para cá quando precisa de dinheiro para comprar coisas para o salão. Tem a "sorte" da mãe já viver cá há muito anos, e por isso poder dividir-se entre ambos países, conforme as suas necessidades.

Foi, portanto, muito interessante descobrir que, apesar de nenhum deles ter trabalhado na construção civil antes de migrar, a qualidade do trabalho que realizam hoje não deixa nada a desejar para qualquer pedreiro, pintor ou ladrilhador experiente. E é aí que está a resposta à pergunta do título desse texto: Por que eu devo contratar um imigrante? Porque, sem generalizar, a necessidade costuma fazer com que ele se esforce muito mais do que qualquer outra pessoa. Ele se esforça porque precisa de dinheiro e não tem suporte familiar no país de destino. Ele se esforça porque quer juntar dinheiro para comprar alguma coisa no seu país de origem. Ele se esforça porque sabe que, para ser aceite, tem que provar que é tão bom, se não melhor, do que qualquer nacional. Ele se esforça porque quer ser aceite pela sociedade de acolhimento, quer ter direitos (para além de deveres), quer ter uma vida melhor do que a tinha em seu país de origem e, muitas vezes, porque aprende a valorizar pequenas coisas, como uma simples "goiabada com queijo minas".

É por isso que quando eu disse à minha irmã, que está no Brasil, que eles estavam a trabalhar inclusive aos sábados, até às 22h, ela ficou muito surpresa e disse: "Aqui eles não fazem isso!" Pois não… Se calhar por não se sentirem estimulados, por ganharem pouco, por não terem expectativas… Mas se você contratar um imigrante, talvez ele faça. Porque, em Portugal ou em qualquer parte do mundo, ser-se imigrante é ser-se esforçado, é ter que sair da zona de conforto, é não ter nada como garantido, e é ter que provar, o tempo todo, que se tem valor.

segunda-feira, junho 10, 2019

Educação para a cidadania global - A educação na diáspora pode ser um dos pilares, mas não é o único

Não podemos pensar numa educação de qualidade no mundo lusófono sem pensar numa educação de qualidade na diáspora. Por isso, segundo Flávio Inocêncio, professor da faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, "a educação é um dos pilares para o desenvolvimento, mas não é o único". Na diáspora muitos são os fatores, para além da educação, que trabalhados em conjunto poderão proporcionar um maior e melhor desenvolvimento.
No entanto, muito se tem falado sobre educação, sobre os acordos e protocolos que têm sido criados entre as universidades do mundo lusófono, mas pouco se tem falado sobre os estudantes que são a "ponta do iceberg" desse desenvolvimento. Como referiu Sílvia Nogueira, professora da Universidade Estadual da Paraíba (em uma comunicação que fizemos em conjunto), tem-se olhado MUITO POUCO para os estudantes, enquanto pessoas que precisam ser acolhidas e integradas na sociedade que os recebeu.
Por isso, antes de mais, é preciso ter em atenção que os jovens na diáspora têm as suas culturas (e é natural que queiram mantê-las), e que se não contribuirmos para a criação de identidades transnacionais, será cada vez mais difícil formar cidadãos globais, enfatizou Emellin de Oliveira, investigadora do Centro de Investigação e Desenvolvimento sobre Direito e Sociedade (CEDIS).
Estas foram algumas das conclusões da conferência "Educação de Qualidade e Desenvolvimento na Lusofonia", promovida pela Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa em conjunto com o Instituto Camões. Esta conferência, que aconteceu entre 6 e 7 de Junho de 2019, debateu o objetivo número 4 presente na Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), Educação de Qualidade.
Foi, portanto, muito bom ver pessoas pertencentes às diversas comunidades dos países de língua portuguesa (CPLP) discutirem, em Portugal, um tema que parece que em outros países da CPLP não tem recebido a devida importância.
De acordo com Ana Paula Laborinho, Diretora da Organização dos Estados Ibero-Americanos, hoje quando falamos em educação de qualidade e desenvolvimento é fundamental perceber que o desenvolvimento também passa pelo ensino superior. Muito se tem discutido a importância da educação de base, querendo, desta forma, diminuir a importância que o ensino superior também tem em todo o processo de formação ao longo da vida. Se, como disse Flávio Inocêncio, "o segredo do sucesso no ensino superior está no ensino primário", por outro lado existe hoje um "divórcio" entre o ensino de base e o ensino superior. Por isso, para este professor, quando se pensa em políticas públicas "não basta só falar em educação e não prestar atenção em outros aspectos institucionais".
Segundo Laborinho, sabe-se hoje que, "também através das artes conseguimos chegar à educação para a cidadania". Por isso, se queremos formar cidadãos que possam contribuir para o desenvolvimento, devemos "pensar a educação não na perspectiva dos alunos que temos, mas daqueles que ainda não temos", ressaltou. Enfim, devemos pensar mais nos alunos, nas suas culturas, e no aprendizado que o estímulo a troca cultural poderá proporcionar.
Ana Paula Laborinho, Diretora da Organização dos Estados Ibero-Americanos
Mas se quando olhamos para a educação na diáspora nos deparamos com programas escolares feitos ainda contra os "outros" (ex-colonizados) e não com eles (como referiu Laborinho), como conseguiremos promover uma educação para a cidadania?

Essa é uma pergunta difícil de responder quando se percebe que isto ainda acontece não só nos países que já foram colonizadores, mas também naqueles que já foram colónias. O Brasil, por exemplo, ex-colónia de Portugal, tentou através da UNILAB - Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira - fazer uma reparação histórica com África, mas acabou por implementar uma universidade "muito neocolonial", como referiu Marcela Magalhães de Paula, da Embaixada do Brasil em Roma. Essa falta de ver os "outros" como iguais, e não como seres superiores ou inferiores, fez com que a implementação da UNILAB pecasse pela falta de preparo dos seus professores, falta de estrutura na cidade onde nasceu (Redenção/ Ceará), para além de uma falta de aceitação dos habitantes locais (o que alimentou o preconceito). Ou seja, houve uma falta de integração dos estudantes dos países africanos de língua oficial portuguesa, o que criou divergências com os pertencentes a outras religiões e aumentou a violência na cidade. E aqui voltamos ao início deste texto, onde, uma vez mais, vimos que é necessário pensar não só na educação, mas no "outro" como um ser humano, que merece ser integrado na sua nova sociedade de acolhimento, que merece ter a sua identidade respeitada para que assim possa criar uma identidade transnacional e, só desta forma, se transformar num cidadão, mas num cidadão global.


Sílvia Nogueira, Flávio Inocêncio, Luzia Moniz (moderação), Marcela Magalhães de Paula

Por isso debater a educação de qualidade, a educação na diáspora, e a educação no mundo lusófono sempre será muito importante. Este foi o terceiro evento sobre o tema, em que estive presente este ano, o que demonstra que esta é uma preocupação cada vez mais transversal às diversas áreas do conhecimento, que buscam respostas, soluções e novas formas de assegurar uma educação/ formação de qualidade ao longo da vida. Desta conferência irão resultar "materiais científicos, que serão divulgados amplamente através do livro de atas e da disponibilização, em vídeo, de toda a conferência", os quais prometo divulgar aqui!

quinta-feira, maio 23, 2019

#EnsinoSuperioremPortugal - "temos gente capaz e que faz com poucos recursos". Será que isso é bom?

No passado dia 16 de Maio debateu-se, no Instituto de Ciências Socias (ICS) da Universidade de Lisboa (ULisboa), "A Universidade em Portugal - Governação, Investigação e Financiamento". Diversos estudiosos do tema estiveram a discutir, do lado do ensino e dos professores, o envelhecimento do corpo docente e a precariedade na contratação de jovens docentes; e, do lado dos  alunos e investigadores científicos, o baixo financiamento público (em comparação com os demais países membros da União Europeia - UE), mas, sobretudo, o crescimento que a ciência teve em Portugal às custas do trabalho precário desses alunos, ou seja, às custas da ausência de direitos e do reconhecimento daqueles que têm tido uma contribuição altíssima para a ciência neste país.

Segundo Carlos Mota Soares, professor do Instituto Superior Técnico da ULisboa, "Portugal investe menos por aluno do ensino superior do que por aluno do ensino básico e secundário". Ainda assim, referiu Carlos Fiolhais, físico e professor da Universidade de Coimbra, "temos gente capaz e que faz com poucos recursos". Mas… até que ponto isso é positivo? O debate que se seguiu concluiu que, enquanto os alunos não se mobilizarem (se calhar como os brasileiros fizeram um dia antes no Brasil), o Estado português não terá porque alterar um modelo em que se investe pouco e, mesmo assim, consegue fazer com que os estudantes/investigadores produzam mais e melhor.

Luísa Cerdeira, Carlos Fiolhais e Nicolau Santos (moderador)

Por um lado, foi interessante observar que o "Movimento ULisboa - Por uma Universidade de Saber, Participada, Coesa e Plural", tenha promovido um colóquio para discutir aquilo que, no Brasil, parece que as autoridades não querem discutir… Por outro lado, foi importante verificar estudiosos do tema reconhecerem que a universidade portuguesa, sobretudo no que diz respeito ao financiamento  público para o ensino e a investigação científica, não anda tão bem quanto os brasileiros (e mesmo os portugueses) possam imaginar… Daí a necessidade de se debater e tentar encontrar soluções para aquilo que precisa ser melhorado.

Em Portugal, de acordo com Luísa Cerdeira, professora do ICS, os principais problemas das instituições de ensino superior públicas prendem-se com o envelhecimento do corpo docente e a incapacidade financeira para contratarem novos docentes.  Por isso, 40% dos docentes que se encontram hoje no ensino superior público português são trabalhadores precários, que estão a tempo parcial - os chamados "horistas". Segundo Cerdeira, não há dados disponíveis para a consulta pública, que mostrem a real situação financeira do ensino superior no país, e esta deveria ser uma exigência de toda a população. Sabe-se, no entanto, que enquanto a média de gasto por aluno do ensino superior nos países da união europeia (UE) é de mais de 6 mil euros anuais, o financiamento do Estado português é bem mais "elegante", ou seja, de apenas 2.389,00 euros. Por isso, de acordo com Cerdeira, pensar que as universidades públicas portuguesas possam deixar de cobrar propinas (mensalidades) nos dias de hoje, não é ser-se realista.

No entanto, e apesar do baixo financiamento estatal ao ensino superior público, Portugal apresenta-se como o 9º país da UE com o maior crescimento neste sector. Isso poderia ser visto de uma forma positiva se não fosse às custas do trabalho precário e de bolsas de estudos que não conferem proteção social nenhuma aos estudantes/pesquisadores. Portanto, como havia enfatizado Cerdeira, ainda que com pouco dinheiro Portugal consiga "fazer coisas boas" no ensino superior, isto, como salientou Paulo Granjo, investigador auxiliar no ICS, tem ocorrido através de um modelo de produção científica que valoriza "a entropia, a falta de inovação, o desperdício de recursos e a continuação dessa precariedade estrutural".

José Cunha Serra, Teresa Malafaia (moderadora), Manuel Carvalho da Silva e Paulo Granjo
Para reverter este quadro deveria haver uma revisão dos apoios sociais e das bolsas de estudo, e o financiamento das universidades deveria ser pensado plurianualmente, se a intenção for internalizar a investigação dentro das universidades. Logo, é verdade que a ciência em Portugal cresceu, mas cresceu "ao lado das universidades" e não "com as universidade", já que não tem permitido que jovens cientistas entrem para os quadros das mesmas e contribuam com este crescimento. Por isso, apesar de reconhecerem que houve uma recuperação no ensino e na ciência em Portugal "pós troika", também reconheceram que este encontra-se estagnado já há 4 anos, e que ainda que o financiamento tenha aumentado, está muito abaixo da média europeia.

Por fim, o antigo sindicalista e atual investigador e professor universitário, Manuel Carvalho da Silva lembrou que muitos estudantes e recém licenciados continuam a abandonar o país porque as universidades entraram "nesse jogo", e hoje em dia estão mais preocupadas em subirem nos rankings do que proporcionarem aos seus estudantes a possibilidade de uma carreira a partir da investigação e com acesso posterior à docencia. Se não houver reformas institucionais e estruturais no modelo de gestão do ensino superior português, como, por exemplo, uma maior autonomia das universidades (uma vez que não são todas iguais), de nada adiantará o aumento do numero de estudantes/investigadores, bem como de publicações científicas, uma vez que este modelo não se irá sustentar por muito mais tempo.

quarta-feira, maio 22, 2019

O que dizem os partidos portugueses sobre MIGRAÇÕES?

Se você foi migrante e hoje tem nacionalidade portuguesa e vota (ainda que o voto não seja obrigatório em Portugal, eu sou da opinião de que todos devemos exercer o nosso direito à ele), talvez seja importante saber o que os partidos portugueses, que estão pleiteando um lugar nas eleições europeias deste domingo (dia 26 de Maio), pensam acerca das MIGRAÇÕES. Ainda que as políticas de migração não mais o afecte diretamente (uma vez que já não é mais migrante), indiretamente elas afetam todos nós (quem sai, quem chega, quem fica, quem reemigra, quem retorna, enfim…) A verdade é que ninguém sabe o dia de amanhã e, qualquer pessoa pode migrar um dia (voluntariamente ou forçosamente), e é bom não desejarmos aos outros o que não queremos que nos aconteça, certo?

Pois bem. Não foi muito fácil encontrar o programa eleitoral dos 14 partidos políticos portugueses que irão disputar uma vaga ao Parlamento Europeu. De qualquer forma, listarei abaixo o que os 6 partidos que hoje possuem representantes na Assembleia da República em Portugal pensam acerca das migrações.

Logos dos 6 partidos que hoje possuem representantes na Assembleia da República em Portugal

# Somos Europa - Um novo Contrato Social para a Europa (6 páginas)
Não é bem um programa eleitoral, mas sim chamado de "Manifesto Eleitoral".

"A União Europeia não pode escusar-se ao seu dever humanitário indeclinável de acolhimento dos refugiados, nem à solidariedade devida para com os países da sua fronteira marítima a Sul que enfrentam uma situação verdadeiramente dramática no Mediterrâneo. Defendemos uma resposta solidária da União Europeia à chamada crise dos refugiados, à altura das obrigações humanitárias previstas nas convenções internacionais, que dite a partilha dos esforços com respeito pela capacidade de cada Estado-Membro e que seja enquadrada pela necessária revisão do sistema europeu de asilo.
Preconizamos, por outro lado, uma política integrada para as migrações, que comece por atacar as causas fundamentais dos fenómenos migratórios por via de cooperação para o desenvolvimento e para a segurança nos países de origem
, que promova a segurança nas fronteiras externas da União Europeia e o combate ao tráfico de seres humanos (como?) e que assegure vias legais para uma gestão controlada das migrações, acompanhada de um investimento sério na integração social dos imigrantes e no combate ao racismo, à xenofobia e a todas as formas de discriminação.
No desenvolvimento desta política integrada, atribuímos uma especial importância estratégica à cooperação com África, não apenas através dos instrumentos europeus, mas também no quadro de uma parceria reforçada com as Nações Unidas, em particular o seu Alto Comissariado para os Refugiados e a Organização Internacional para as Migrações. Defendemos, igualmente, o Pacto Global das Migrações, recentemente adotado pela ONU - que Portugal ajudou a negociar e se empenhará em concretizar. E lutaremos para que a União Europeia se mantenha como uma referência à escala global na Cooperação para o Desenvolvimento, honrando os compromissos com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável."

2 - CDS-PPCentro Democrático e Social - Partido Popular
MAIS EUROPA, MENOS BRUXELAS (36 páginas) não é um programa eleitoral, mas uma "moção" a partir da qual foram criadas as "linhas programáticas" para o programa PORTUGAL. A EUROPA É AQUI (21 páginas). Ambos textos contém, portanto, as mesmas ideias. A seguir segue o que está na "moção".

"Temos obrigação de acolher com humanismo todos quantos tentem escapar das atrocidades que o mundo enfrenta. Mas para que o consigamos fazer, com recursos necessariamente limitados, impõe-se rigor na entrada, que distinga o que tem de ser distinguido. Uma coisa são refugiados, merecedores ao direito de asilo, outra coisa são migrantes à procura de trabalho, obrigatoriamente sujeitos às leis da imigração, que existem em quaisquer partes do planeta." (tá… ainda que não tenha entendido o que queiram dizer por "rigor na entrada"...)
"Impõem-se hotspots capazes de, à entrada, principalmente nas fronteiras mais pressionadas da Grécia e Itália, registarem cada caso e com a colaboração das forças de segurança e serviços secretos de todos os países, mostrarem eficácia na deteção dos infiltrados terroristas que todos os dias tentam aceder a uma União Europeia, que só tem futuro em paz, se for também fortaleza." (não acho que seja tão simples colocar hotpots e registar todo mundo com o apoio das forças de seguranças e etc... Mas já que eles propõem, gostaria de saber como pretendem fazer isso…)
"Devemos assumir que a União Europeia não precisa de qualquer pessoa. Só faz falta quem esteja disposto a integrar-se, a cumprir as nossas leis, a respeitar os nossos modos de vida, a não atentar contra a nossa existência, a garantir que não nos sentiremos sequestrados e com medo dentro da nossa própria casa. Para estes, tudo. Aos outros, simplesmente nada." (Bem… essa frase me deixou alguns questionamentos: Será que a União Europeia não precisa mesmo de ninguém? Será que integrar significa SÓ os imigrantes cumprirem as leis e respeitarem o modo de vida dos "outros"? Não vou nem falar do "não atentar contra a nossa existência", pois isso não tem nada a ver com integração, mas com civismo. Conheço muito imigrante que cumpre leis e respeita os outros, mas que ainda não está integrado. Não conheço, felizmente, nenhum que tenha atentado contra os outros, mas certamente se ele fez isso é porque não estava integrado. Provavelmente não estava integrado nem no seu país de origem...)

3 - PAN - Pessoas, Animais, Natureza
A Europa começa em ti
Não sei quantas páginas, porque não consegui descarregar o programa. O mesmo encontra-se no site divido por áreas. Até aqui, foi o único partido que apresentou um conjunto de propostas na área das migrações, nomeadamente:
"- Reforçar o diálogo entre Estados-Membros e a Comissão Europeia com os restantes países e blocos políticos, de modo a encontrar uma plataforma comum de entendimento baseada em fatos e dados científicos para gerir as migrações;
- Consolidar iniciativas conjuntas, nomeadamente da Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira, para reduzir o tráfico de seres humanos e garantir a confiança dos europeus no sistema de gestão de migrações; (E como se consolida iniciativas conjuntas?)
- Rejeitar visões nacionalistas, xenófobas, racistas, sexistas, homofóbicas e transfóbicas na gestão de migrações;(Acho um pouco perigoso dizer simplesmente "rejeitar" e não dizer o que pretende fazer… Censura?)
- Cumprir os acordos europeus e internacionais para efetivar uma estratégia de longo prazo, nomeadamente através da adoção e implementação de mecanismos de realojamento e a alocando mais funcionários em centros de apoio
- Melhorar a estabilidade e as oportunidades nas regiões de origem, fomentando um comércio mais justo e  relações bi ou multilaterais mais equitativas; (E como pretendem fomentar um comércio mais justo???)
- Garantir passagens seguras e melhorar os processos de asilo, com particular enfoque nas necessidades especiais de proteção das crianças; (Como?)
- Partilhar responsabilidades em e por toda a UE garantindo que os Estados-Membros que não consigam receber refugiados possam contribuir financeiramente e de um modo mais ativo para o Fundo para o Asilo, a Migração e a Integração (FAMI); (Será que os Estados que não consigam receber mais refugiados têm como contribuir financeiramente?)
- Aplicar uma perspetiva de investimento social à integração de refugiados, migrantes e imigrantes com objetivos e prioridades claras;
- Assegurar o acesso a empregos condignos e formação contínua cultural e linguística como garante de plena integração (Como?);
- Garantir o apoio a quem regresse aos seus países de origem (Como?);
- Apoiar abordagens de “baixo para cima” garantindo a envolvência e cooperação de indivíduos, cidades, municípios, organizações, empresas e grupos de interesse, de modo a reforçar a pertença e integração social destes cidadãos;
- Aumentar o diálogo intercultural e o respeito de modo a evitar o isolamento, a guetificação e a radicalização de comunidades e/ou grupos; (Como?)
- Garantir a não polarização do debate político e social em torno das migrações, usando factos e dados científicos de modo a assegurar a dissipação de preconceitos, mitos e ideias falsas; 
- Desenvolver uma nova abordagem ao fenómeno da migração massiva, que se paute pelo humanitarismo, pelo zelo pelos Direitos Humanos, pela dignidade da pessoa humana, pelo respeito, tolerância e acolhimento do Outro e da diversidade, uma abordagem mais ampla, mais profunda, mais eficiente e sustentável com articulação entre a dimensão governamental, inter-governamental e a sociedade civil;
- Trabalhar em cooperação com os meios de comunicação social para, de forma aberta e transparente, se partilhar o caminho traçado e as políticas públicas implementadas.

4 - PSD - Partido Social Democrata
Mais Portugal, Melhor Europa (22 páginas)
Mais um manifesto eleitoral!

O tema das migrações aqui aparece atrelado à Estratégia Comum para a Natalidade, ou seja, para "combater o “inverno demográfico”, aliviando no médio prazo os fortes impactos negativos no mercado de trabalho, na sustentabilidade da segurança social e na renovação geracionaldeve articular-se estreitamente com a estratégia política para as migrações".

Lendo esse manifesto, eu realmente fiquei com dúvida se era para o Parlamento Europeu… Em grande parte do que lá está, o partido deixa muito mais claro o que pretende para Portugal e não para a Europa… É estranho, porque sei que o PSD é a favor da União Europeia. Mas, em muitos pontos, vi mais um projeto para Portugal do que para a Europa…
De qualquer forma, referiu-se ao tema das migrações sem quase escrever esta palavra em todo o "manifesto". Preferiu colocar "circulação", deixando claro que: "Proteger os europeus significa garantir a liberdade de circulação em segurança, uma melhor cooperação policial e judicial, melhorar o controlo das fronteiras externas." Ou seja, "preservar e defender Schengen".
Defende, no entanto, "a criação urgente de uma verdadeira Agência Europeia para o Asilo com os meios humanos e operacionais adequados…"

5 - Bloco de Esquerda
A Força que faz a diferença (20 páginas)
Outro manifesto!

O Bloco aborda o tema das migrações referindo-se à "catástrofe humanitária e a hipocrisia da UE", afirmando, sem base científica, pelo menos que conste no manifesto, que "as migrações resultam do desespero e da miséria extrema que levam milhões de pessoas a atravessar desertos e oceanos, desafiando a própria morte. A larga maioria destes imigrantes permanece em solo europeu, dando
um contributo inestimável para a diversidade social e cultural, para o equilíbrio do saldo demográfico e para a sustentabilidade dos sistemas de segurança social.
" Posteriormente, refere: "Neste contexto europeu Portugal não é um oásis mas, nos últimos anos, deu passos importantes para humanizar as leis de imigração que precisam de ser aprofundados, a par da eliminação de práticas administrativas obsoletas e discriminatórias. O Bloco tem-se empenhado neste combate civilizacional que urge aprofundar em Portugal e prosseguir no plano europeu." (Mas não diz como…)


6 - CDU (PCP-PEV) - Coligação Democrática Unitária (Partido Comunista Português - Partido Ecologista "Os Verdes")
Defender o povo e o país (30 páginas)

Bem… sabemos que a CDU é contra a UE. Logo, no que chamou de "Declaração Programática do PCP para as eleições do Parlamento Europeu de 2019", compromete-se "com a defesa dos interesses do povo e do País"... e "contra as imposições do Euro e da União Europeia".
De qualquer modo, defende:
"- O respeito pelos direitos dos migrantes e dos refugiados; a rejeição da ‘Europa fortaleza’ e do seu cariz securitário e repressivo; a rejeição de uma visão selectiva e exploradora, patente em instrumentos como o “cartão azul” e
- O combate a todas as formas de discriminação, ao racismo e à xenofobia, ao fascismo, ao chauvinismo, ao nacionalismo, ao anticomunismo e a todas as formas de intolerância e práticas autoritárias e antidemocráticas
".

E também, "uma Europa que promova efectivas relações de amizade, de cooperação, de solidariedade com todos os povos do Mundo" e "que respeite e promova a cultura, a diversidade e o intercâmbio cultural".

domingo, maio 19, 2019

A questão não é falta de liberdade de imprensa, mas o que os jornalistas fazem quando têm essa liberdade

Sob o tema "Democracia e Liberdade de Imprensa", a revista portuguesa "Sábado", completou no passado dia 15 de Maio, 15 anos de existência. Apesar das discussões acerca deste tema já estarem mais do que batidas, como parece que até hoje existe uma certa dificuldade dos órgãos de comunicação social manterem a sua liberdade, mesmo em países democráticos, tenho que concordar que falar sobre esse assunto continua a ser pertinente.

Sofia Colares Alves - Representante da Comissão Europeia em Portugal, João Miguel Tavares - Jornalista, 
Francisco Teixeira da Mota - Advogado e Vladimir Netto - Jornalista

Não gosto muito de conferências que não dão voz à plateia, mas como eram muitos oradores, e todos eles muito bons, conseguiu-se um debate interessante. No entanto, no dia seguinte, todos os jornais portugueses, inclusive a Revista Sábado, resumiram o evento a uma única frase, proferida pelo Presidente da República em Portugal, Marcelo Rebelo de Souza, orador convidado para a abertura do evento: "Sem comunicação forte, não há democracia forte". Ok! Essa até pode ser uma frase de impacto, que justifique a manchete de todos os órgãos de comunicação (apesar de eu achar que toda a pessoa, com um bocado de inteligência, já sabe disso… ou seja, todo mundo que vive em democracia sabe que, faz parte da ordem democrática que tudo e todos sejam escrutinados no domínio público, certo?). No entanto, tanta coisa mais importante foi debatida neste evento e deixada para trás pelos órgãos de comunicação… o estrangulamento económico que as empresas jornalísticas estão a sofrer, o risco de sobreviverem somente as empresas mais fortes e voluntaristas, o combate às censuras veladas, como se defender de abusos, garantir a isenção e fomentar a leitura, enfim… como os escrutinados, mesmo não concordando com o que dizem deles, devem sempre usufruírem dos seus direitos de resposta.

O Presidente da República em Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa

Aliás, "a quebra da leitura em Portugal" foi, por exemplo, um dos pontos salientados pelo Presidente da República, nada explorado pelos órgãos de comunicação, apesar de eu achar que você,
que chegou até aqui, deve ser um dos poucos que ainda continuam a ler, não só em Portugal, mas em qualquer parte do mundo! Ou seja, estamos, também na comunicação (no artigo anterior referi a mesma coisa em relação à educação), atravessando um período de mudança de paradigma.

Como referiu Edwy Plenel, fundador da Mediapart (uma espécie de laboratório colaborativo que hoje se mantém somente com a receita obtida com os seus assinantes), "criou-se um monstro com a gratuidade das notícias via Net, tendo-se como fonte de rendimento somente as publicidades". Este foi um erro histórico pois, PARA FAZER UM JORNAL DE QUALIDADE É PRECISO PAGAR PESSOAS DE QUALIDADE (como se diz em Portugal, não é possível fazer omelete sem ovos!) Logo, se depois esse conteúdo é colocado gratuitamente na Internet, e as publicidades não são suficientes para custearem o trabalho do jornalista, quem o irá pagar?

Edwy Plenel

Por isso, a crise dos media de hoje, para além de ser fruto de problemas relacionados com a produção de conteúdo (pois hoje há uma "nova" figura no jornalismo, que não é jornalista, mas se mistura com este nos meios digitais, disseminando sobretudo convicções e não informação útil), também é fruto de problemas advindos da distribuição (cada vez mais rápida e com um maior alcance) de toda essa panóplia de conteúdo. (Até aqui, nada de muito novo).

Vladimir Netto
Mas foi a partir daqui que, para mim, começou o ponto alto deste evento, em nada explorado posteriormente pela comunicação social: A participação do jornalista brasileiro Vladimir Netto, autor do livro LAVA JATO, que inspirou a série da Netflix "O mecanismo". Confesso que não li o livro, mas quem o leu refere que, apesar do mesmo ser baseado em factos verificados e comprovados, há uma determinada altura em que o jornalista se confunde com um romancista, e é aí que fica evidente a opinião do autor (coisa que um jornalista deveria tentar não facultar - e digo tentar porque não acredito em imparcialidade total no jornalismo, pois a simples forma como este enxerga um acontecimento denota certa parcialidade).

Pois bem, mas neste contexto, achei interessante Vladimir Netto ter referido que no final do governo Dilma, ou melhor, quando se iniciou a operação Lava Jato, havia uma liberdade de imprensa total, e o acesso aos documentos do processo totalmente liberado para os jornalistas (coisa que, também de acordo com o mesmo, hoje em dia está muito diferente). Ora, isto me fez pensar que o problema pode não estar na falta de liberdade de imprensa ou acesso à informação, mas na capacidade do jornalista indagar: Por que eu tive, ou me deram, tanta liberdade? Por que eu tive, ou me deram,  acesso à essa informação? Qual é o interesse por trás daqueles que me facultaram essas informações?
Será que ninguém se lembrou de perguntar (e é por isso que eu não gosto de conferências sem a participação do público) se Vladimir Netto não achou no mínimo estranho toda essa facilidade com que os órgãos de comunicação tiveram acesso aos documentos da Lava Jato? 

Eu sei que a primeira temporada de "O mecanismo" (essa eu vi) mostra o juiz Sérgio Moro apenas como um vaidoso, que de tudo fez para progredir na carreira (se considerarmos onde ele está hoje, essa ideia não é de todo absurda). No entanto, naquela altura, nenhum jornalista desconfiou que tudo o que ele estava fazendo poderia não ser somente por "sede de justiça"? 
Será que ninguém desconfiou que poderia haver outras intenções na Lava Jato, e sobretudo na prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que não se prendiam única e exclusivamente com a "benevolência" ou vaidade desse juiz? Enfim… achei no mínimo naif essa visão romanceada de todo o processo da Lava Jato (mas isso é a minha opinião, porque isso é um artigo de opinião).

Não contesto o jornalismo que Vladimir Netto fez (e faz), mas sim a ingenuidade de não ter percebido porque a imprensa teve um acesso tão facilitado às informações deste processo naquela época, se hoje, como ele mesmo referiu, o atual governo "tem restringido o trabalho da imprensa", afirmando mesmo que "há um esforço em descredibilizar a imprensa brasileira".

O facto é que, em 2018, foram contabilizados 156 casos de violência contra jornalistas no Brasil, sendo 85 ataques por meios digitais (a maioria à blogueiros), e 4 deles terminando mesmo em assassinato. Existe, nas palavras de Vladimir Netto, uma prática de ataque à imprensa nunca vista antes. "Na reta final da campanha eleitoral de 2018 a imprensa era atacada uma média de 10 vezes por semana, segundo um levantamento do jornal Folha de São Paulo", completou.

A estratégia do atual governo é, portanto, taxar de verdadeiras notícias falsas (e aqui não confundir erro jornalístico, que as vezes pode acontecer, com notícias produzidas com má fé, para desinformar a população), utilizando um verdadeiro "exército" para repercutí-las, sobretudo através das redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas.

Apesar de todas as iniciativas que têm sido feitas para combater as fake news, como a criação de diversas agências de checagem (e aqui quem quiser poderá utilizar essas ferramentas para checar as informações que são disseminadas: Aos Fatos, Lupa, Projeto Comprova, Fato ou Fake, Estadão Verifica, Folha Informações) as pessoas precisam entender que "o produto do jornalismo não é mais 
a informação, mas sim a credibilidade da mesma", salientou Vladimir Netto, citando Jorge Furtado em 9 de Agosto de 2014. Daí a importância de todos, antes de compartilharem uma notícia, procurarem saber a sua fonte, ou seja, como a mesma foi feita? Qual a credibilidade de quem a produziu? Nos dias que correm, conhecer o processo de produção das notícias nunca foi tão importante!

Deixo-vos, aqui, o link de um programa que assisti hoje, na SIC Radical, que exemplifica muito bem "Como Isto Anda", no jornalismo.

sábado, maio 18, 2019

#WorldFamilySummit2019 - Enquanto em Portugal discutia-se o desenvolvimento sustentável a partir da Educação, o Brasil anunciava cortes na Educação...

Pode parecer um contrassenso, mas enquanto no dia 14 de Maio, no Brasil, articulava-se uma manifestação contra os cortes na Educação; em Portugal diversas entidades públicas, privadas e membros da sociedade civil em geral (entre os quais muitos brasileiros) discutiam o desenvolvimento sustentável a partir de uma "Educação de Qualidade". Isto aconteceu entre 13 e 15 de Maio, durante a edição de 2019 do World Family Summit, que foi realizado pela primeira vez em Portugal.


Para que nenhuma família seja deixada para trás, é necessário uma educação de qualidade

Mas afinal, o que é o World Family Summit?
Foi em 1947, em Paris (um ano após a criação da World Family Organization - uma organização internacional que nasceu para representar e defender os interesses das famílias no mundo) que aconteceu o primeiro Congresso Mundial da Família. Nesta altura, a recém criada Organização das Nações Unidas (ONU) esteve representada através 200 delegados e 27 nações. Em 2004, o então Secretário-geral da ONU, Kofi Annan, sugeriu celebrar o 10º aniversário do Ano Internacional das Família, e a World Family Organization, juntamente com universidades e organizações não governamentais afiliadas provenientes de 189 países, criaram a primeira edição do World Family Summit.
Por isso, durante 3 dias, 34 países membros das Nações Unidas debateram, em Lisboa, 3 dos 17 objetivos globais para o desenvolvimento sustentável que fazem parte da Agenda 2030 da ONU: educação de qualidade, comunidades e cidades sustentáveis e a criação de parcerias para o alcance de tais objetivos. Esta Agenda é, portanto, um conjunto de programas, ações e diretrizes, que os países membros da ONU propõem com o intuito de erradicarem a pobreza, protegerem o planeta, e promoverem a prosperidade para todos até 2030.

#worldfamilysummit2019
Tendo como mote "O desenvolvimento sustentável começa com a Educação", a sessão plenária do dia 14, do World Family Summit, enfatizou o aprendizado ao longo da vida e através de múltiplos caminhos como um direito de todos os cidadãos e uma obrigação do Estado e da iniciativa privada. Neste sentido, António Valadas da Silva, do Instituto para o Emprego e Formação Profissional em Portugal, salientou a importância do papel da família na educação, uma vez que a formação do indivíduo não termina com o fim do ciclo de estudos, e lembrou que o combate a pobreza, a proteção do ambiente e o fortalecimento da democracia, somente são possíveis através de uma educação permanente.

Portanto, apesar da educação de hoje precisar ser repensada, as instituições de ensino superior continuam a ter um papel ativo em toda e qualquer mudança. Somente com o pensamento crítico nas universidades, com a liberdade para experimentar e ter novas ideias, as universidades poderão contribuir para um desenvolvimento sustentável e inclusivo, completou Clara Raposo, Presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) em Portugal. Somente através do debate entre as partes interessadas, as nações poderão se preparar para uma mudança de paradigma na educação.

É certo que a sessão plenária do dia 14 não teve como "keynote speaker" nenhum brasileiro… mas havia muitos a ouvir o que as outras nações tinham a dizer sobre uma educação de qualidade, e nenhuma das nações que se pronunciou retirou a importância do papel da universidade neste processo. Por isso, os professores devem estar preparados para o uso das tecnologias na sala de aula, mas como o acesso às tecnologias pode variar de país para país, os professores são os únicos que poderão contornar essa dificuldade. A importância dos professores está, portanto, justamente no facto do acesso ao conhecimento digital estar nas mãos deles e não nos objetos digitais. Um professor preparado e estimulado é capaz de decidir o que usar em suas aulas, ainda que os seus alunos não possam ter acesso direto às tecnologias, salientou o professor Millad M. SAAD, da Universidade Libanesa.

Por isso, ao ouvir no dia 14 de maio de 2019 diversos países membros das Nações Unidas exaltarem que o desenvolvimento sustentável de qualquer país começa na educação, e saber que no dia a seguir iriam haver manifestações no Brasil em protesto contra os cortes nas verbas destinadas à educação, eu tive muita dificuldade em entender o que o Brasil, apesar de ser um país membro da ONU, estava lá a fazer… Espero que os brasileiros que lá estiveram tenham realmente ouvido e interiorizado que uma educação de qualidade depende de investimento SIM, de um ensino superior de qualidade SIM, de professores preparados e motivados SIM, mas, sobretudo de liberdade para se experimentar e se ter novas ideias. Espero que todos tenham entendido que o pensamento crítico nas universidades só se constrói com debate, com participação cívica e com o exercício da cidadania. Por fim, espero que o Brasil todo tenha entendido a importância das manifestações do dia 15 de maio de 2019, e que não aceite que o direito à educação deixe de ser uma obrigação do Estado.

sábado, maio 11, 2019

Um palco, 6 bailarinos, 30 lâmpadas e temos um espectáculo de dança que é quase uma instalação artística!

Estreou ontem, dia 10 de Maio, mais um espectáculo do Quorum Ballet Companhia de Dança e... uma vez mais, foi MUITO BOM!
Se você não é português (e mais especificamente da Amadora), pode nunca ter ouvido falar deles, apesar de existirem desde 2005 e já terem apresentado 690 espectáculos, em 18 países diferentes! (mas se você ainda não ouviu falar deles saiba que o problema não está, certamente, na qualidade dos espectáculos, mas sim na comunicação e divulgação dos mesmos. Só que não irei me alongar sobre isso porque, afinal, este não é o objetivo deste post!)

Eu já tinha tido o privilégio de assistir o maravilhoso "Saudade - Back to Fado" e agora tive a oportunidade de ir à estreia de "IMPULSO". Sob a direção artística do coreógrafo e bailarino Daniel Cardoso, uma vez mais o Quorum Ballet mostrou que, para além da qualidade dos seus bailarinos - ainda que fosse notório o nervosismo e alguma falta de confiança normais em uma estreia (mas nada que com mais ensaios não se possa ajustar), o sucesso dos seus espectáculos está na CRIATIVIDADE com que usa elementos, que apesar de não serem inéditos em espectáculos de dança, são inéditos na maneira como esta companhia os utiliza.

Em "Back to Fado" a água foi o elemento presente e, desta vez, foi a LUZ! E aqui não estou falando da iluminação de palco, mas de 30 lâmpadas que, para além de comporem o cenário desse espectáculo, foram elementos essenciais, e participaram ativamente, das coreografias que ali foram criadas.


Quem me conhece sabe que fiz ballet clássico e depois me apaixonei pelo Flamenco. Ou seja, a dança contemporânea nunca foi uma paixão para mim porque sempre a considerei "pobre"... composta por um excesso de repetição de movimentos que, por vezes, tornam os espectáculos cansativos. Por isso mesmo, o bailarino contemporâneo acaba por se destacar muito mais pela interpretação que dá às coreografias do que propriamente pela técnica (muito mais exigente na formação clássica). Portanto, o que me conquistou no Quorum Ballet foi, em primeiro lugar, a maneira com a qual os seus bailarinos interpretam as coreografias. 

Em "IMPULSO" mais uma vez eles foram capazes de interpretar sentimentos, emoções… algo que "pulsasse" rápido (como um coração que bate por amor) ou devagar (como um coração que quase para de bater por causa de uma dor). Isso acompanhado por 30 lâmpadas que desciam do teto sobre o palco, acendendo e apagando ao ritmo de cada música, fez com  que os diferentes tipos de impulsos, as diferentes formas de pulsar, fossem interpretadas não só com a dança dos corpos, mas também com a dança das luzes. Tratou-se, portanto, não só de um espetáculo de dança, mas de técnica e criatividade. E aí estão os outros elementos que fizeram com que eu me rendesse à beleza dos espectáculos do Quorum Ballet. A combinação da dança com elementos como a água ou a luz, por exemplo, faz com que tenhamos mais do que um espectáculo de dança, uma verdadeira instalação artística!

Mais informações sobre o espectáculo IMPULSO em: https://quorumballet.com/en/events/impulso/

Saiba mais sobre o Quorum Ballet neste vídeo do programa televisivo "Feitos em Portugal" da RTP2

sexta-feira, maio 10, 2019

Por que e Para que uma Feira do Empreendedorismo Migrante?


O fim de semana passado estive na segunda edição da Feira do Empreendedorismo Migrante (FEM), promovida pela Associação Lusofonia Cultura e Cidadania, que aconteceu nos jardins do Palácio Pimentel/ Museu de Lisboa (o lugar em sí já valeu o passeio!). Mas a par das tradicionais “barraquinhas”, com artesanatos e iguarias de diversos países, esta feira foi mais um ponto de encontro entre pessoas de várias nacionalidades, com ideias empreendedoras, muitas das quais ainda em estado embrionário.
Por um lado, foi interessante observar um aumento de indivíduos de nacionalidades que, até então, não eram muito expressivas em Portugal, como venezuelanos, colombianos, filipinos, etc. Por outro lado, e tendo em conta que, segundo o site do evento, esta feira contou com o dobro de expositores do ano passado (cerca de 100), notou-se também uma maior incidência dos indivíduos dos países lusófonos, até mesmo pelo número de startups que têm surgido com os olhos postos nos mercados africano e brasileiro.
Marcelo Roriz, por exemplo, consultor migratório da empresa “Consultoria em Portugal”, revelou que, apesar de prestar serviços para imigrantes de qualquer nacionalidade, atualmente são os brasileiros, com um nível socioeconómico mais elevado, que mais os têm procurado. Este tipo de consultoria é prestada para indivíduos que ainda se encontram no Brasil, e desejam investir, trabalhar, estudar e viver legalmente em Portugal. No entanto, e tendo em vista a alta dos preços no mercado imobiliário em Lisboa, Marcelo também disse que, neste momento, a procura tem sido maior pela zona de Setúbal. “Só no próximo mês iremos receber 170 brasileiros, que já vêm com as situações regularizadas e as casas arrendadas”, revelou.
De facto, diversas têm sido as notícias que têm dado conta do aumento da comunidade brasileira em Portugal. Só os Jornais Diário de Notícias (em Portugal) e Folha de São Paulo (no Brasil) publicaram, no passado mês de Abril, 11 notícias sobre brasileiros em Portugal. Entre estas, o tema mais abordado prendeu-se, justamente, com o aumento desta comunidade no país. Daí o porque deste tipo de feira ser necessária. O número de estrangeiros residentes em Portugal voltou a crescer (de acordo com o Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo de 2017) e, entre eles, o número de brasileiros (5,1% a mais do que em 2016, totalizando 85.426). Destes, muitos têm vindo com o intuito de investir no país (o número de vistos para independentes e investidores duplicou de 2016 para 2017, segundo o Relatório Estatístico Anual de 2018 do Observatório das Migrações). Por isso, o principal objetivo da FEM foi “disponibilizar apoio, divulgação, promoção, formação, desenvolvimento de competências, para que estes indivíduos possam criar os seus negócios, redes de contatos e oportunidades de financiamento e investimento”.
No entanto, entre a necessidade de se existir eventos como este (por que) e os mesmos conseguirem atingir os objetivos a que se propuseram (para que), existe uma grande diferença: Vejamos, por exemplo, o caso de um projeto bastante interessante: o “Empreendedor Online.com”. Trata-se de um serviço de apoio à divulgação de negócios na Web, que além de desenvolver e administrar websites, pretende oferecer consultores especializados na área do cliente, a fim de maximizar a eficácia do negócio. Neste sentido, especialistas de diversas áreas poderão se unir ao projeto, enquanto “associado” ou “mentor social”, e prestar os seus serviços quando solicitados. É, sem dúvida, uma ideia bastante boa, mas que ainda precisa de apoio, sobretudo quanto a sua divulgação e promoção. E digo isto em tom de crítica construtiva, porque penso que uma empresa que pretende prestar um serviço de comunicação, deve tomar mais cuidado ao divulgar um folder explicativo escrito, “Saiba mais em: Projeto Empreendedores Online.com”, quando na realidade o nome do projeto - aquele que iremos pesquisar na Net - é Empreendedor (no singular e não no plural). Neste sentido, é para isso que servem estas feiras: Para darem este tipo de feedback e, assim, fazerem com que ideias giras como essa sejam trabalhadas e possam vingar no futuro.
É preciso, por exemplo, estar mais atento à comunicação, divulgação, e mesmo aproximação com um potencial cliente. Um dos expositores que chamou a minha atenção na FEM foi a “Associação Adoro Ser Mulher” - uma associação que pretende unir em rede o empreendedorismo feminino dos países e comunidades lusófonas. Lá também recebi um folder explicativo mas, diferentemente do que se passou no stand do “Empreendedor.com”, em nenhum momento, nenhuma das mulheres da “Adoro ser Mulher”, veio ter comigo para saber se eu pretendia maiores informações. Para um evento onde se pretende fazer networking, não achei essa postura muito produtiva, o que, uma vez mais, reforça a necessidade de uma maior disseminação deste tipo de eventos para o desenvolvimento de competências, sobretudo sociais e de gestão, que posteriormente poderão consolidar ideias. 
Apesar de em Portugal já estarmos mais habituados e ver coxinhas de galinha e pão de queijo à venda nos cafés, os imigrantes que para cá têm vindo almejam investir para além da restauração. É certo que muitos destes empreendedores não o eram em seus países de origem e que, por isso, apesar de boas e inovadoras ideias, poderão não saber colocá-las em prática. Se já é difícil fazer vingar um negócio no seu próprio país, cujas necessidades e a cultura da comunidade se conhece a partida, quão mais difícil será fazer isso em outro país?