terça-feira, julho 12, 2016

E se o povo acordasse? Será que isso é possível?

Ou ser humano é mau por natureza; ou possui a memória muito curta, ou simplesmente muda de opinião conforme mais lhe convém!

Esta semana aconteceram dois episódios, que apesar de não terem nada a ver um com o outro me fizeram pensar e questionar algumas coisas:

1 - "Que humanidade mais desumana!"
2 - "Porque antes, ser nacionalista era mau, e agora já é bom?"
3 - Porque antes, FADO, FAMÍLIA e FUTEBOL, eram sinónimos de um governo ditatorial, e agora já não são mais?

O primeiro episódio remete-me ao que aconteceu com o toureiro espanhol, Victor Barrio, morto a tourear em Espanha, no último dia 9 de Julho.
A notícia publicada pela Revista Sábado, em sua página no Facebook, gerou uma série de comentários e aquelas "carinhas" de escárnio que, literalmente, me fizeram ter vergonha de ser humana!



Não vou entrar aqui no facto de ser contra ou favor de touradas, ou que não se deve fazer mal ao bicho, não, não vou discutir nada disso aqui, porque cada um tem a sua opinião e eu respeito todas as opiniões, ok?

O que está em causa aqui é que as pessoas, para defenderem as suas opiniões, justificam a morte de um ser-humano através de comentários com uma falta de compaixão inacreditável! Ou seja, as pessoas confundem as suas opiniões com a compaixão, o sentido de humanidade e respeito pela dor do próximo... É, literalmente, "morreu à torrear (e a minha opinião é que eu sou contra a tourada porque tenho pena do bicho), então bem feito!"
Minha gente, o facto de ser contra a tourada e ter dó do bicho não tem nada a ver com o nosso sentido de compaixão e respeito pela vida humana, ok? Por isso, comentários como os que eu lí no Facebook da Revista Sábado, penso que poderiam ter sido evitados:

Por exemplo: "Quem anda à chuva molha-se" (Óbvio! Mas se eu, me puser a fazer um desporto radical, como escalar o Everest, por exemplo, e me acontecer alguma coisa, também vou ouvir alguém dizer "Quem anda a chuva molha-se? Se eu fumar demais e morrer de enfisema pulmonar, se beber demais e morrer de cirrose hepática, se fizer sexo e não usar preservativo e morrer de alguma doença sexualmente transmissível, também vou ter ouvir "Quem anda à chuva molha-se?" Será que esta frase é mesmo apropriada e necessária, seja em que contexto for?)

Eu não irei colocar todos os comentários chocantes que lá estão, mas quem tiver paciência, ir à página do Facebook da Revista Sábado.

Quando aos meus outros dois questionamentos, deparo-me com uma Europa cada vez mais nacionalista (o que antes era considerado um perigo, devido ao exemplo do nacionalismo exacerbado que nos levou às duas grandes guerras, parece estar ganhando cada vez mais terreno) e ser-se nacionalista, de repente, passou a ser uma coisa boa! Sim, ok, ser nacionalista pode ser bom! Temos que nos valorizar, acreditar no potencial do nosso país, isso sim! Gostar que o nosso time de futebol seja campeão... enfim... mas não podemos esquecer que o nacionalismo também pode nos levar ao que está acontecendo à Grã-Bretanha neste momento, o famoso "BREXIT", ou seja, "não queremos mais os estrangeiros aqui porque somos nacionalistas e a Grã Bretanha é dos bretões". Oi? Aonde é que eu já ouvi isso... A Alemanha é dos alemães... Por isso acho que vale sempre a pena PENSAR (aliás essa é a palavra chave!) e não simplesmente rotular: O Nacionalismo é Bom ou o Nacionalismos é mau!

O mesmo se tem passado com a trilogia FADO, FAMÍLIA e FUTEBOL! Ainda essa semana, após o FUTEBOL se ter sobressaído em Portugal (o que na época de Salazar teria sido considerado o ópio do povo para desviar a atenção do país dos problemas mais proeminentes), e o Presidente da República Portuguesa ter dito que iria à FÁTIMA agradecer (coisa que também na época de Salazar teria sido considerado um desvio de atenção à religião) hoje, estão a ser vistos como bons olhos em Portugal.

A selecção “Nação valente” ainda pode levar Marcelo a Fátima

Eu, de facto, acho que a memória das pessoas (e aí obviamente) não falo somente dos portugueses, é muito curta! As pessoas esquecem-se muito rapidamente das coisas e, por isso, uma coisa que um dia foi a grande "BESTA" da história de uma nação, passa, logo a seguir, a ser "BESTIAL!" Por outro lado, também acho que aos políticos isto lhes convém... Assim, enquanto lhes der jeito, vamos falar de FUTEBOL, fazer o povo esquecer as mazelas do dia-a-dia, e também esquecer que um dia Salazar falou nos 3 F(s)!

Mas e se o povo acordasse, hein?

Juliana Iorio

segunda-feira, julho 11, 2016

O que significa serviço Público em Portugal?

Se existem algumas diferença evidentes entre Portugal e Brasil, uma delas é a conceção do que é um Serviço Público.

No Brasil, Público significa GRATUITO e pronto.
Assim, Saúde Pública é igual à Saúde Gratuita, Ensino Público é igual à Ensino Gratuito, e por aí vai...

Em Portugal, NADA É GRATUITO! Tudo que é Público tem um coparticipação do Estado, mas isso não significa que não tenhamos que pagar nada por isso. Saúde Pública, pagamos uma taxa moderadora, e o Estado coparticipa com o resto. Ensino Público, pagamos uma propina (mensalidade) muito inferior do que se fôssemos pagar em uma Instituição privada, mas pagamos, e o Estado entra com o resto. Até o serviço de Rádio e Televisão Portuguesa nos é cobrada uma taxa na conta de eletricidade. Ou seja, em Portugal, Público não é sinónimo de gratuito.

Explicadas as diferenças, qual sistema é melhor?

Na minha modesta opinião, o melhor sistema é aquele que funciona! Ou, na falta de um funcionamento de excelência, aquele que, pelo menos, funciona melhor!

Se não, vejamos:
- De quê adianta ser gratuito e não ter qualidade nenhuma?
- De quê adianta ser gratuito, se você não poder utilizá-lo porque não há médicos, não há remédios, não há nada?
- De quê adianta ser gratuito se você é obrigado a fazer um Plano de Saúde Privado (que também nem sempre é bom, mas normalmente é caríssimo), porque o Público não dá conta do recado?

Nesse caso, eu prefiro pagar a taxa moderadora (que normalmente é um valor irrisório, em comparação com um serviço privado), e ter o resto coparticipado pelo Estado; sabendo, entretanto, que será possível utilizar esse Serviço Nacional de Saúde.

Com todos os problemas que a crise trouxe para Portugal nos últimos anos, o que obviamente também afetou o Serviço Nacional de Saúde, numa simples comparação com o Serviço de Saúde Público no Brasil, posso, sem sombras de dúvidas, afirmar que ainda prefiro o português.

Moral da história:
Nem tudo que é Público tem que ser gratuito.
Se for Público, e eu tiver que pagar uma taxa moderadora (que ronda entre os 5 e 15 euros - dependendo se for uma consulta ou uma urgência), mas eu for atendida porque ainda há médicos e ainda há materiais para que os médicos possam continuar a fazer os seus trabalhos, não me importo em pagar!

Juliana Iorio

quarta-feira, julho 06, 2016

Sobre as Novas Edições Académicas!

Muito se tem falado sobre esta Editora, inaugurada em 2013, que anda convidando muita gente a publicar os seus trabalhos.
Uns dizem que é um "editora predatória" visto que publicam de tudo, com a revisão do próprio autor.
Outros já dizem que, por estar sediada na Alemanha, até possui algum estatuto...
Não sei... A única coisa que sei, e que não poderia deixar de publicar aqui (apesar de já há muito não escrever neste blog), é que se esta editora tem conseguido dar alguma visibilidade à trabalhos que, até então, ninguém tinha acesso, então, na minha opinião, ela, de alguma forma, tem conseguido fazer um bom trabalho!

Imaginem uma pessoa que terminou o mestrado ou doutoramento com uma nota até boa (o que indica que deve ter realizado um bom trabalho), mas, no entanto, nenhuma editora considerada de "renome" quis publicar esse trabalho? (Aliás, acho que isso é o que mais acontece!)

Pois bem, agora imaginem  que a Universidade aonde esta tese foi defendida, ainda não teve a capacidade de disponibilizá-la numa plataforma online (o quê, por incrível que pareça, ainda é a realidade de algumas universidades) e que, por isso, a única maneira dos interessados em lerem esta tese, será através do documento em papel que, teoricamente, deverá estar disponível na biblioteca desta universidade.

Ora, num mundo globalizado, você ter como única possibilidade de acesso à uma tese, o formato em papel, consultável única e exclusivamente na biblioteca da universidade aonde a mesma foi defendida, é a mesma coisa que você não ter a sua tese disponibilizada!

E é aí que eu pergunto: Por que, então, você passou entre dois a cinco anos da sua vida pesquisando algo no mestrado ou no doutoramento (respetivamente), se ninguém (ou muito poucas pessoas) terão acesso à sua pesquisa? E isso não significa que não haja "N" pessoas interessadas em ler esta pesquisa!

Bem, a proposta das "Novas Edições Acadêmicas" é, justamente, publicarmos um livro baseado em nossas teses. Obviamente, esta não é nenhuma atitude altruísta e, como qualquer outra editora, o que esta também pretende é vender livros! Seja online ou em papel. Por isso, o que a faz convidar muitos estudantes a publicarem os seus trabalhos é, claramente, este aspeto mercadológico. O título da tese é atraente? É um título que teria o interesse de muitos leitores? É um título que venderia muitos livros? Portanto, em primeiro lugar, não devemos nos iludir com o interesse súbito desta editora pelos nossos trabalhos.

Por outro lado, devemos sim, tentar tirar o melhor partido desta situação. Bem ou mal é uma oportunidade que estão a dar-nos para divulgarmos um trabalho que, talvez, se não fosse deste modo, nunca seria divulgado. Assim, tal publicação sempre poderá ser uma mais-valia, visto que no fim, o que conta mesmo, é a qualidade do seu trabalho, e não o veículo pelo qual ele foi divulgado!

Mas que é preciso divulgar, é!
Juliana Iorio