Eu sempre disse que, uma vez jornalista, sempre jornalista. O reconhecimento público às vezes demora, mas só não desistimos porque gostamos verdadeiramente do que fazemos. Ou do que fizemos. Ou do que sempre tentámos fazer, apesar de nem sempre termos conseguido viver disso.
Foi uma licenciatura no Brasil, um reconhecimento de diploma em Portugal, um mestrado pré-Bolonha, uma especialização em média e jornalismo e muitos trabalhos pelo meio. A maioria em jornais impressos, grande parte sem contrato, como freelancer. Mas também houve revistas, sites, televisão, blogues e redes sociais.
Formei-me em 1996. Tinha então 21 anos. Desde essa altura procurei viver do jornalismo. Consegui fazer alguns trabalhos aqui e ali, integrar a Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal, colaborar como freelancer para o Portal UOL e para o G1 e escrever artigos de opinião para o Diário de Notícias. Mas investigar a fundo e escrever grandes reportagens, aquilo que sempre quis fazer, foi muito mais difícil. E com o passar do tempo tornou-se ainda mais difícil. Infelizmente, as pessoas leem cada vez menos e têm cada vez menos paciência para textos longos e aprofundados. Mas é precisamente isso que eu sei e gosto de fazer.
Então fui para a academia. Aí, finalmente, consegui viver durante algum tempo da investigação científica, ou da pesquisa, se preferirem. A escrita é diferente, mas a profundidade do conteúdo pode ser ainda maior. Tive de deixar de lado alguma da objetividade jornalística para adotar uma abordagem mais analítica. No entanto, também a investigação se tornou cada vez mais difícil como projeto de vida. Não por falta de reconhecimento profissional, mas pela escassez de oportunidades. Poucas portas abertas e, mesmo essas, exigindo um enorme esforço para serem atravessadas. Muitos bons investigadores, muita subjetividade na definição dos temas financiados e, com o tempo, uma motivação cada vez menor para continuar.
É certo que a idade também pesa. Quando chegamos aos 52 anos, depois de décadas a lutar para fazer aquilo de que gostamos, a força já não é a mesma. Ou melhor, transforma-se. Mobiliza-se para batalhas menos árduas e, esperamos, mais frutíferas. Foi assim que entrei para a administração pública, onde hoje procuro compreender na prática aquilo que, durante muitos anos, observei sobretudo na teoria.
E foi no meio desse "mundo novo" que recebi a notícia de que, aos 52 anos, sou finalmente reconhecida publicamente por aquilo que sempre fui: JORNALISTA.
A reportagem que escrevi no ano passado para o jornal Expresso, no âmbito de um projeto da Associação Pão-a-Pão, intitulada "Imigrantes com diploma lutam para ter trabalho qualificado", foi distinguida com o 3.º lugar na categoria Imprensa Nacional da IX Edição do Prémio de Jornalismo "Analisar a Pobreza na Imprensa", promovido pela EAPN Portugal / Rede Europeia Anti-Pobreza.
Este trabalho procurou compreender por que razão o Governo português, à época, afirmava pretender atrair imigração altamente qualificada para o país, ao mesmo tempo que continuava a enfrentar dificuldades na retenção de muitos profissionais já residentes em Portugal.
A reportagem reuniu testemunhos de profissionais de diferentes áreas e nacionalidades, bem como de especialistas na matéria, evidenciando os diversos obstáculos encontrados no acesso a empregos compatíveis com as qualificações obtidas nos países de origem.
A versão online incluiu ainda depoimentos de portugueses qualificados residentes no estrangeiro, que apontaram a perda de rendimento e de condições profissionais como fatores que desincentivam o regresso a Portugal.
Esta edição do prémio da EAPN Portugal distinguiu trabalhos jornalísticos que abordam a pobreza e a exclusão social sem reforçar preconceitos ou representações negativas sobre as pessoas que vivem essas situações. Foram analisados 24 trabalhos jornalísticos, 15 de imprensa nacional e nove de imprensa regional.
A cerimónia de entrega dos prémios realiza-se no dia 15 de outubro de 2026, às 18h00, no Hotel Eurostars Oporto, na cidade do Porto.
Muito obrigada à EAPN Portugal por esta distinção.
Juliana Iorio
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